EM BUSCA DE MINHAS RAIZES
São Paulo, 14 de março de 2003
Tudo começou há muitos anos, quando tinha 14 anos de idade e tive uma aula na escola dominical com o irmão Hélio da Rocha Camargo, sobre genealogia. Ainda me lembro quando ele nos entregou uma folha de grupo familiar e nos pediu que preenchêssemos. Obviamente, como a maioria dos jovens, não consegui ir além do nome de meus pais e avós, não sabendo nem sequer a data de nascimento deles. Ele pedia que fizéssemos pelo menos quatro gerações, e foi então que tive que recorrer à ajuda de minhas avós, Esther Cabral Nogueira ( materna ), e Marianna Bifulco ( paterna ), que me deram o nome de seus pais e das cidades de onde se originavam o que foi de extrema ajuda.
Minha avó Esther, muito gentilmente, escreveu num papelzinho, que guardo até hoje comigo, alguns nomes e datas e eu formei o primeiro grupo familiar de minha genealogia. Posteriormente, em 1977 recorri a minha avó Maria, a quem chamávamos carinhosamente de Vó Percó - apelido dado por meu avô quando eram jovens, pois ela tinha uma pele muito bonita, que se parecia a de um pêssego. Não sei bem o significado dessa palavra, mas me parece que tinha alguma coisa haver com pêssego em algum dialeto italiano, pois pêssego em italiano é pesco. Ela também me deu informações muito importantes e preciosas, que me ajudaram na busca de sua família do lado paterno.
Minhas avós porém, não sabiam muito sobre os ancestrais de seus maridos, ou seja meu avô materno, de descendência alemã que já havia falecido, e meu avô paterno, de descendência italiana que também já havia falecido e que morava longe de nós pois estava separado de minha avó havia muitos anos, desde que meu pai tinha 12 anos de idade.
Com isso, muito contente, dei como terminada minha participação na aula de genealogia como faz a maioria das pessoas. Esqueci completamente, que além de meus avós, bisavós, e tataravôs existem outros parentes esperando que os encontremos, como tios, primos, irmãos, etc. Eu me acomodei e deixei hibernando meus documentos e informações pois na época não havia muitos meios para procurar fora do Brasil.
Depois de muitos anos, mais madura e adulta, resolvi buscar minhas raízes novamente e fazer um pouco de pesquisa depois do falecimento de meu querido pai, a quem eu amava muito e ainda amo, de todo o meu coração.
Procurei então a ajuda da consultora de genealogia de minha ala na época, irmã Magda Attman, uma senhora alemã, muito minuciosa, a quem agradeço muito, pois me disse que eu devia começar procurando nomes e datas nos cemitérios e cartórios das cidades de onde eram meus antepassados, pois na época não havia Centro de Historia Familiar – CHF – no Brasil, e só assim, segundo ela, eu poderia fazer a pesquisa corretamente.
Eu sentia o Espírito de Elias muito forte dentro de mim e ‘mergulhei’ de todo coração na procura dos documentos de meus parentes, aqui em São Paulo e Mogi das Cruzes, de onde vinha parte de minha família. Coletei uma infinidade de documentos. Ia a cartórios, os encomendava e posteriormente ia buscá-los. Nenhum cartório fazia no mesmo dia, pois tinham que procurar nos livros, transcrever à máquina o documento o que tomava muito tempo. As datas que eu possuía eram aquelas que minha avós haviam fornecido e muitas não eram muito precisas o que dificultava um pouco as buscas. Mas nessa ocasião consegui muitos documentos preciosos e com informações importantíssimas.
Gostaria de relatar aqui a ajuda que tive do outro lado do véu durante esses períodos.
Relato sobre Amélia Rivera que faleceu no ano de 1935 com 7 anos de idade
Como me havia recomendado irmã Magda Attman, eu buscava a certidão de nascimento e óbito de uma irmã de meu pai que faleceu ainda pequena. Ela tinha 7 anos e 10 meses de idade quando teve uma peritonite que a levou desta terra.
Eu estava procurando no cemitério do Araçá, onde minha família, por parte paterna, tem um jazido e encontrei no livro o nome dela. Não havia muita informação nos registros de cemitério. Eu tinha muito carinho por ela, pois minha avó sempre chorava quando falava sobre a única filhinha que teve, pois os outros filhos eram todos homens, e que havia morrido tão cedo. Ela guardava uma foto e um sapatinho dela e sempre nos mostrava.
Nesse dia eu havia procurado exaustivamente por todos o que estavam enterrados nesse túmulo, até mesmo uma tremenda tempestade que caiu sob a cidade de São Paulo não me fez parar. Só parei quando as repartições públicas fecharam e então me dirigi ao escritório de meu falecido pai que ficava no Cambuci, para conversar com seu ex-sócio, Sr. Amélio Appolinário Rodrigues que, ao me ver, abriu um grande sorriso e me disse que havia sonhado com meu pai naquela noite. Ele não era membro da igreja e não sabia que meu pai tinha uma irmã que havia falecido ainda menina e que se parecia muito com minha irmã Vivian, segundo minha avó , pois era loirinha de olhos verdes e grandes. Ele conhecia muito bem Vivian e tinha muito carinho por ela, pois a viu nascer e foi a primeira pessoa a visitá-la no hospital quando ela veio ao mundo. Meu pai havia falecido há pouco tempo e havia deixado Vivian com 12 anos de idade. Ele me disse que em seu sonho entrou num lugar onde haviam muitas pessoas vestidas de branco e que meu pai estava sentado num dos bancos com roupa branca também e dando a mão para uma menininha loira de olhos verdes. Ele disse que meu pai ficou muito contente ao vê-lo e que perguntou se ele queria ficar por lá. Ele prontamente lhe disse que não, que não tinha nenhuma vontade de ficar naquele lugar, e em seguida perguntou a meu pai se aquela menina era a Vivian no que meu pai prontamente lhe respondeu que não, mas que era sua irmãzinha que havia falecido quando era ainda pequena. Ele me disse que ficou surpreso e que nunca soube que meu pai tinha uma irmã pois só conhecia seus 3 irmãos. Eu lhe informei nesse momento que meu tinha uma irmã e se parecia com Vivian. Ele ficou muito admirado e surpreso. Eu fiquei muito emocionada pois sei que esse sonho foi para aumentar meu testemunho com relação à obra vicária. Sei que o Senhor o fez sonhar com a Amélia, irmãzinha de meu pai, que eu tanto procurei durante toda a tarde daquele dia, para que eu soubesse que ela existe e que está do outro lado do véu junto com seus familiares esperando para ser reunida com toda nossa família. Meu pai foi o primeiro a falecer de seus irmãos, mesmo antes de sua mãe. Eu não tenho a menor dúvida de que nossos antepassados estão orando para que os encontremos e que existe somente um tênue véu que separa nossos dois mundos, o da terra e o do espiritual onde eles esperam para que o ajudemos.
Busca do túmulo da Família Rivera no Cemitério São Paulo
Depois disso tive, nessa mesma ocasião, outra experiência muito interessante que não acredito que tenha sido mera coincidência.
Estava necessitando saber endereço do local do jazigo da família Rivera, onde estava enterrado o meu bisavô italiano. Haviam dito que eu devia ir ao cemitério São Paulo e perguntar na administração onde era o túmulo. Eu quase não tinha tempo, pois devia ir duas vezes, como sempre. Uma para dar os dados – os quais não estavam completamente corretos – e em uma outra ocasião voltar para ver se encontraram. Naquela época não davam informações por telefone e isso dificultava muito a pesquisa.
Bem, a mãe de meu tio político, Ivo Caetano Bracco, faleceu e eu fui ao funeral. Como é sempre difícil parar o carro em frente aos cemitérios, resolvi ir antes do féretro para poder encontrar lugar para estacionar e dar uma chegadinha no escritório da administração. Tive muito ‘sorte’ em encontrar um único lugar bem em frente à administração e desci correndo para saber onde ficava o túmulo de meu bisavô, italiano, Alexandre Rivera. Já eram quase 4 horas da tarde e as repartições fechavam normalmente as 16:30 horas e as pessoas não gostam muito de atender o público no fim do expediente. Em todo caso entrei e me coloquei no balcão para ser atendida. Perguntei se podiam olhar o endereço de onde estava enterrado meu bisavô. Eles me disseram que já era tarde para procurar , pois eu não tinha nem a data do falecimento e que eu voltasse em outro dia. Eu lhes disse que estava aproveitando a ocasião pois havia vindo no enterro da mãe de meu tio e se não daria mesmo para eles darem uma olhadinha.
O administrador então me perguntou no enterro de quem eu estava indo e eu lhe disse que era o da Sra. Herminia Bracco, mãe de meu tio. Ele me disse, Sra. Hermínia Bracco ? Ela é a mãe de meu dentista, e eu gosto muito dele ! E com isso decidiu procurar para mim o endereço do túmulo de meu avô. Nesse dia mesmo consegui o que queria. Se não fosse essa ‘coincidência’ eu teria tido mais dificuldades para encontrar esse túmulo que me ajudou muito nas buscas posteriores sobre a família Rivera. Consegui com isso muitas certidões de nascimento e óbitos de meus antepassados italianos que residiram em São Paulo, o que me ajudou nas pesquisas futuras.
Novamente, fiz alguns grupos familiares e enviei ao Templo tudo o que pude, e guardei a pasta de genealogia, como muitos de nós fazemos. Já havia feito o mais fácil, que era o que estava a meu alcance e o resto ficaria para depois. Não sabia como procurar meus avós alemães, italianos e os tataravós portugueses. Não havia muitos meios no Brasil naquela época, como há agora com os CHF nas estacas. Só conseguíamos dados da Europa se tivéssemos parentes por lá ou se contratássemos uma pessoa para fazer pesquisa o que era muito custoso. Dei por terminada minha parte italiana.
Quero contudo deixar claro, que não desisti... só posterguei. Constantemente orava e meditava sobre como fazê-lo. Olhava mapas e procurava o sobrenome alemão nas listas telefônicas por todas as cidades em que passava, que aliás foram muitas. Nos mapas eu procurava a cidade de ‘Goglionessi’ de onde vinham os avós de meu pai, mas a escrita estava errada na certidão de óbito dele e nunca encontrei nada, pois é um pequeno vilarejo numa província pequena da Itália. O nome correto é Guglionesi e a província é Campobasso. Nas listas telefônicas eu procurava o sobrenome alemão de meu avô materno – Adlung – que só conhecia em minha família e em nenhuma outra mais. A pessoa mais antiga com esse sobrenome de eu tinha notícia em nossa família era meu avô, pai de minha mãe que já havia falecido há muitos anos e ninguém sabia onde se encontravam os irmãos dele que eram 3. Nunca encontrei nenhum sobrenome parecido com esse. Até cheguei a pensar que a ortografia estivesse errada como muitos sobrenomes estrangeiros no Brasil. Procurei em muitas cidades grandes fora do Brasil, pois tive a oportunidade de viajar muito pelas Américas do Norte e do Sul, mas nunca nada nem chegava perto de Adlung.
Assim, eu ia postergando a busca de meus antepassados. Agradeço muito ao Senhor por haver contudo, mantido uma chama acesa dentro de mim durante todos esses anos.
Como encontrei a primeira pessoa com o sobrenome Adlung na cidade de São Paulo no ano de 1978
Paulo Adlung ( Senior )
Em 1978 a cidade de São Paulo já tinha uma população bem grande, creio que em torno de 11 milhões de habitantes mais ou menos. Meu pai havia falecido no ano anterior e minha mãe dependia de mim para muitas coisas. Ela não dirigia e eu a levava para todos os lugares necessários. Na época eu morava com ela e minha irmã Vivian. Certo dia mamãe me pediu para levá-la ao Centro de nossa Estaca que ficava na capela do Caxingui pois ela tinha uma entrevista com o Presidente Darcy Correia, para a renovação de sua recomendação para o Templo. Como eu sabia que isso as vezes é demorado, levei comigo minha pasta de genealogia para ir revisando enquanto esperássemos por sua vez . Mamãe entrou e eu, obviamente, fiquei do lado de fora esperando-a enquanto fazia sua entrevista. Presidente Darcy olhou a recomendação anterior de mamãe e surpreso disse à ela que não sabia que o nome dela era Juvenir Adlung Rivera, pois ela era conhecida somente por irmã Juvenir Rivera, que era o sobrenome de meu pai que ela adotou quando se casou. O segundo nome, Adlung, quase ninguém sabia, a não ser os secretários das alas e da estaca. Ela disse a ele que esse era o sobrenome dela de solteira, pois sua família por parte paterna era alemã. Ele lhe disse, que achava interessante, pois o filho dele ia se casar com uma moça com o sobrenome Adelungue, bem parecido com o sobrenome dela. Mamãe então lhe disse que era assim que as pessoas no Brasil escreviam o sobrenome dela e que meu avô, pai dela, nunca permitiu que o fizessem e manteve e lutou para manter o original. Mamãe em seguida pediu licença ao Presidente Darcy e saiu da sala por uns instantes, para me dizer o que ele havia lhe dito, pois ela havia ficado muito admirada com a ‘coincidência’. Como eu estava com a pasta de genealogia nas mãos, em seguida peguei a certidão de casamento dos pais dela, e pedi a ela que entregasse a ele para que verificasse junto à família de sua futura nora, se havia algum parentesco.
Alguns dias depois ele chegou com a mais esperada notícia ! A futura nora do irmão Darcy era filha da prima irmã de minha mãe. Seu avô era Paulo Adlung, irmão de meu avô, que foram separados quando a família de minha avó, Cabral de Vasconcellos e Nogueira , mudou de São João da Boa Vista para Mogi das Cruzes levando junto todos os filhos, inclusive o marido de minha avó, João Adlung que era filhos de alemães. Naquela época não havia tantos meios de comunicações como temos agora, o que dificultava o convívio entre parentes que moravam em lugares distantes. Com o passar do tempo, os irmãos Adlung: Ema, Frida, Paulo e João se separaram e nunca mais se encontraram. Esse foi mais um milagre que aconteceu em minha vida na busca de minhas raízes. Quando nós temos o desejo de fazer a obra do Senhor, Ele nos ajuda abrindo as portas para nós. É tão sutil Sua ajuda que muitas vezes a confundimos com ‘coincidências’, por falta de fé, em não acreditarmos na grande ajuda que temos do outro lado do véu quando estamos envolvidos no serviço do Senhor. Essa ajuda chega quase a ser palpável quando estamos fazendo a obra genealógica.
Como o Senhor nos mostrou onde estavam os Cabral de Vasconcellos
Em realidade quem encontrou os Cabral de Vasconcellos, minha família por parte materna, não fui eu mas sim meu querido marido, Osiris Grobel Cabral, que além de todos as obrigações e responsabilidades que tem como líder temporário e seus chamados eclesiásticos também é um homem dedicadíssimo à obra genealógica.
Como mencionei no início destes relatos, eu somente soube que era descendente dos Cabral de Vasconcellos porque minha avó escreveu numa folha solta de caderno, a qual guardo até o agora comigo, como relíquia . Preenchi na época uma folha de grupo familiar, e dei por acabada a minha obrigação com minha família portuguesa.
Em Setembro de 1981 Osiris e eu nos casamos, e no início de 1982 fomos chamados para servir uma missão em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Osiris contudo, já havia levado-me a São João da Boa Vista e Águas da Prata de onde vieram minhas famílias portuguesa e alemã para buscarmos mais informações. Encontramos vários avós, tios e parentes colaterais nos livros dos cartórios dessa cidade. Na época ainda não tínhamos microfilmes desses locais. Ele coletou tantos dados nesses dois dias que até hoje não entendo como conseguiu tantas informações em dois dias e uma noite que passamos lá. Hoje, um pouco mais experiente no assunto, fico admirada com rapidez com que ele agiu. Já tinha nessa época, muita experiência em ler os livros antigos e decifrar as caligrafias dos escrivãos e líderes eclesiásticos da Igreja Católica . Foi a primeira aula de genealogia que tive com este meu grande professor nos assuntos do Senhor.
Depois disso fomos para a Missão e por três anos não houve muito tempo para pesquisa. Tínhamos, além dos missionários, 3 meninos pequenos do primeiro casamento dele e mais duas meninas que nasceram durante a missão, o que limitou um pouco meu tempo. Ele com os missionários e eu com nossos filhos tão pequenos ainda. O mais velho tinha 9 anos. Quando terminamos a missão, em 1985, Osiris foi mandado para Caracas, Venezuela, e depois de uns meses de adaptação no trabalho ele retomou suas pesquisas genealógicas. Comprou um projetor de slides usado pelo governo da Venezuela, num ferro velho, e o adaptou para ler os microfilmes que havia encomendado de Salt Lake City. No primeiro ano que moramos na Venezuela, ainda não havia CHF – Centro de Historia Familiar - em Caracas, então ele projetava os filmes na parede e os lia sempre que tinha algum tempo livre. Não havia carretilha para rodar o filme, pois era um projetor de slides adaptado e Osiris ia depositando o microfilme lido em um balde de plástico que servia só esse propósito. Depois enrolava tudo manualmente de volta. Isso ele fazia sempre que tinha algum tempinho de folga em casa ou seja, quando as crianças estavam dormindo ou estavam distraídas com alguma outra atividade. Como disse o Presidente Kimball certa vez : ‘ Quem quer encontra um meio e quem não quer arruma uma desculpa ’ . Admiro muito meu querido marido pelo exemplo que ele sempre nos deu. Osiris, nosso filho mais velho e as vezes eu, o ajudávamos, escrevendo o que o ele lia nos microfilmes.
Bem, com o já disse em outros relatos, o Senhor abençoa aquele que tem o desejo de obedecer. Nós não sabíamos de que lugar de Portugal se originava minha família Cabral de Vasconcellos. Osiris tampouco sabia. Minha avó havia dito que vinham da Ilha de São Miguel, Açores. Mas lá existem muitos vilarejos e teríamos levado anos para encontrá-los sem a ajuda dos céus. Certo dia Osiris estava lendo um microfilme de Vila das Capelas, São Miguel, Açores, para procurar seus parentes de nome Cabral e qual não foi sua surpresa quando encontrou um Cabral de Vasconcellos, justamente como o sobrenome de minha família. Ao ler o documento ficou emocionado por haver encontrado o avô de minha avó, João Cabral de Vasconcellos, aquele cujo nome ela havia escrito numa folha solta de papel, a qual preservo até hoje. Nesse microfilme em particular, ele encontrou muito pouco da família dele, mas em compensação descobriu o ‘ninho’ da família Cabral de Vasconcellos! Extraiu muitos nomes desse lugar e os mandou para o Templo para fazerem a obra por eles, pois nessa época ainda não havia Templo na Venezuela. Alguns anos depois enviou os nomes para o Ancestral File, um programa que na época A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias compartilhava através de microfilmes com o restante dos genealogistas do mundo inteiro. Ainda não havia Internet, mas já havia esse programa maravilhoso para publicar os nomes de nossos familiares para que outros pudessem encontrar e identificar algum parente em comum.
Anos mais tarde, em Maio de 2002, quando já estávamos morando em São Paulo, Osiris recebeu um calhamaço de folhas com a genealogia de uma parte dos Cabral de Vasconcellos, que nos enviava John Miranda Raposo, morador em Swansea, Massachusetts , Estados Unidos da América dizendo que um dos meus bisavôs, Manuel Joaquim Cabral de Vasconcellos era um bisavô dele também. A seguir transcrevo na íntegra sua carta:
20 May 2002
Osiris Grobel Cabral
c/o International Personnel
50 East North Temple
Salt Lake City, Utah 84150
Greetings !
While doing some genealogical research on familysearch.org, I came across your entries on the Vasconcelos family of Capelas. As it turn out, I have some additional material in my data base which comes from the Genealogias of Carlos Maria Gomes Machado ( MS, Archivo e Bibliotece de Ponta Delgada, c. 1920), which I hope you will find useful.
Very truly yours,
John Miranda Raposo
Marralha@cs.com
Ficamos muito felizes com a gentileza desse nosso parente americano. Verificamos os dados e vimos que um ramo de minha família portuguesa chegava até mais ou menos 1500, pois o mais antigo da lista, CS Salvador Afonso Pimentel, havia morrido antes de 1529.
Um ano e meio depois do recebimento e após verificar a veracidade das informações Osiris as colocou em seu banco de dados e enviou minha genealogia portuguesa de volta a John M. Raposo, juntamente com uma parte de sua própria genealogia, a fim de ver se havia alguém da família dele também no mesmo banco de dados e dessa maneira pudéssemos ter conhecimento de algum parentesco entre nós dois. Algumas semanas depois, John nos enviou outro calhamaço de informações, desta vez indo um ramo de minha genealogia até Adão ! Não encontrou, infelizmente, nenhum parente em comum dessa família com a família de Osiris. Vamos continuar nossa busca.
Um fato muito interessante, que gostaria de deixar relatado aqui, é que nessa época ( 2001 a 2003 ) eu estava muito envolvida na busca de meus ancestrais italianos ! Não estava dedicando nada de meu tempo à genealogia portuguesa, mas o Senhor trabalhou comigo, lado a lado, e me deu de presente tantos dados por parte de meus parentes de Portugal, o que fez aumentar muito mais minha responsabilidade, pois em genealogia, quanto mais nomes são encontrados, mais outros nomes teremos que procurar. Agora tenho muita pesquisa para fazer durante toda minha vida aqui na terra ! Vou deixar às minhas filhas e seus descendentes, a incumbência de procurar as pessoas que eu não conseguir achar.
Agradeço muito a meu Senhor e Deus por ser um Pai de Amor e por me permitir sentir a presença de seres celestiais abrindo o caminho para que eu possa encontrar esse meus queridos ancestrais. Sei que sem ajuda do outro lado do véu eu jamais lograria o que tenho logrado. A ajuda é tanta que meu coração se enche cada vez mais de força para continuar a jornada nessa obra maravilhosa. Sei também que do outro lado do véu a alegria é imensa e isso me dá muito ânimo para buscar minhas raízes e meus queridos antepassados. Sei que essa é obra dos céus e ninguém pode me convencer do contrário, pois tenho ajuda palpável, que não consigo justificar ou entender com esse meu corpo mortal.
Como encontrei o lugar de origem de meus antepassados Rivera
Alexandre,Rosalina, Alesandro, Vitoria, Filomena,Felicia e Elisa, Sao Paulo - 1911
O Senhor atua que maneira diferente e sutil. Ele nos ensina, nos mostra e nos inspira. O que temos a fazer é acreditar Nele , e colocar em ação o que Ele nos indica dessa maneira as janelas dos céus serão abertas e as bênçãos serão derramadas sobre nós.
Há alguns anos, quando ainda morava em Quito, Ecuador, nosso bispo, irmão Araque, resolveu ativar a obra genealógica na ala. Chamou Osiris, meu marido para dar um curso de genealogia e enviou todos os primeiros conselheiros das auxiliares para fazer o curso. Nessa época eu era primeira conselheira da organização das moças e, portanto, mesmo achando que já sabia tudo sobre como fazer genealogia, fui obediente e fui fazer o curso. Achava porém no íntimo que sendo esposa do professor, não havia motivo para fazer o curso porque se tivesse alguma dúvida ele poderia me ajudar. Mas, como sempre aprendi que devemos fazer o que os líderes nos pedem, freqüentei as aulas de genealogia com muita assiduidade, mesmo porque levaria bronca do ‘professor’ se não fosse às aulas dando mal exemplo aos demais.
Após de vários domingos, depois aprendermos o porque da obra vicária, sermos espiritualmente motivados e havermos aprendido a preencher os formulários corretamente, chegou o dia em que deveríamos ir ao CHF – Centro de História Familiar, para que pudéssemos aprender a ler os microfilmes e conhecer o lugar e o casal de missionários que estava encarregado desse serviço. Ficou acertado de nos encontrarmos nos escritórios da Igreja em Quito na quarta-feira seguinte, à noite. Eu já sabia ler os microfilmes porque havia sido extratora de nomes em microfilmes quando foi aberto o primeiro CHF em Caracas, mas resolvi ir de qualquer maneira ‘ para dar bom exemplo’ e talvez, quem sabe, ajudar meu marido se houvesse necessidade, pois éramos 6 alunos.
Como não havia Internet na época, ele nos ensinou a olhar as microfichas e os CDs com o nome das localidades onde os livros dos Registros Civil ou os vários registros de Igrejas de várias denominações já haviam sido microfilmados pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Todos tivemos que pensar em alguma cidade que nossos antepassados haviam possivelmente nascido. Eu pensei na cidade de meus bisavós italianos, pois nunca havia encontrado o lugar que minha tia avó havia mencionado ao escrever suas memórias : Guglionesi, Campobasso, Itália.
Então, buscamos o continente, o país, a província e a cidade. Eu nem sabia direito como era a divisão política da Itália, mas fiz questão de desfrutar de minha aula prática no CHF. Fiquei boquiaberta quando vi pela primeira vez o nome Guglionesi, Campobasso, Itália. Eu não podia acreditar ! Nunca havia encontrado esse nome antes e até achava que minha tia havia se enganado ao escrever o nome do vilarejo. Fiquei muito feliz com o fato e resolvi pedir o microfilme para Salt Lake City.
Depois de várias semanas, o esperado microfilme chegou. Aí encontrei outro obstáculo. Meu sobrenome Rivera é muito comum entre os paises de idioma espanhol e muito raro na Itália. Eu achava que poderia ser Rivieri, Riviera, ou outra versão qualquer, mas Rivera não podia ser. Achava isso porque meu bisavô, que era analfabeto, entrou no Brasil depois de haver morado muitos anos na Argentina portanto, o primeiro porto que ele desembarcou foi de língua espanhola e conseqüentemente eu achava que eles haviam colocado Rivera porque era mais fácil de se pronunciar e bem conhecido entre eles. Há muitos documentos antigos com esse problema, principalmente aqui no Brasil. Eles mudavam o nome dos estrangeiros para ficar mais parecido com o idioma português. Eu deduzi, portanto, que seria muito difícil encontrar meus antepassados em Guglionesi, pois o nome certamente não era o original. Mesmo assim, resolvi ler o microfilme para ver o que aconteceria. Durante várias semanas, lia o microfilme por algumas horas. Na maioria dos livros havia índice e eu buscava todas as letras ‘R’ para encontrar Rivera ou o que fosse parecido com Rivera.
Um dia, como sempre acontece quando a gente faz o que o Senhor nos manda, fui surpreendida e, em um cantinho, bem claro, estava o nome Rivera Alesandro, figlio di Giovanni Rivera e Maria Felicia Lattanzo ! Eu não podia acreditar . Lá estavam eles... meus antepassados italianos ... de quem meu pai tanto falava e sobre os quais minha tia avó Rosalina Rivera havia escrito! Lágrimas brotavam de meus olhos. Um nó travou minha garganta e eu agradeci ao Pai por mais esse milagre ! Havia encontrado, escondido entre as montanhas do mar Adriático, no sul da Itália, o ninho de meus antepassados italianos, que tanto sofreram com a fome e a miséria daquela época. Ninguém pode imaginar a alegria que a gente sente ao encontrar parte de nossas raízes e de saber que eles existiram , que tiveram alegrias e provações como nós temos. Descobri que minha tataravó teve muitos filhos, muitos mais do que minha tia havia mencionado em suas memórias e que morreram ainda pequenos. Que alegria senti em poder ajudar a unir essa família para a eternidade ! Muito poucas coisas trazem tanta felicidade como essa de fazer a obra por essa gente que não conheceu o Evangelho Eterno. Essa tataravó teve 8 filhos, que consegui identificar, dos quais 4 morreram quando pequenos. Uma filha morreu com 11 anos ! Já era uma mocinha. Que tristeza . Cada vez que encontrava uma certidão de óbito deles eu chorava pensando no sofrimento de minha tataravó quando essas crianças faleciam.
Sou imensamente grata a Meu Pai Celestial por haver me inspirado e haver preparado todo o caminho para que eu pudesse encontrar meus queridos antepassados. Sei que fui ‘empurrada’ a buscar esses nomes por nossos queridos e inspirados líderes, e agradeço por poder ter esses homens e mulheres tão dedicadas ao Senhor em minha vida, que não me deixam esquecer o meu propósito aqui na terra.
Quero agradecer também pela maravilhosa Igreja de Jesus Cristo restaurada nos últimos dias que proporciona tantos meios para que possamos atingir nossos objetivos. Sei que é a Igreja do Senhor aqui na terra e sinto o amor e dedicação total de nosso Profeta, assim como os Apóstolos, que deixam tudo na vida, para servirem ao Senhor Nosso Deus.
Visita a São João da Boa Vista - Março de 2003 – Terra de meus antepassados
Continuando nossas buscas, Osiris e eu resolvemos ir a São João da Boa Vista por ocasião do feriado de carnaval de 2003, que caiu em março, para encontrarmos meus parentes colaterais e também continuarmos nossas buscas com relação à família alemã de minha mãe.
Foram 2 dias muito especiais. Nunca esquecerei os momentos tão espirituais que lá passamos.
No primeiro dia resolvemos ir à Cúria para olharmos os livros de assentos anteriores a 1875, pois foi somente dessa época em diante que os cartórios foram estabelecidos. Como o Cônego anterior não permitiu que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias micro-filmasse os documentos católicos, resolvemos ir pessoalmente para ver se conseguiríamos encontrar alguma certidão de casamento, batismo ou óbito de meus antepassados nessa cidade, que não fossem do Registro Civil.
Ao chegarmos na Cúria, deparamos com um senhor que tinha o aspecto de um padre que nos atendeu com muita cortesia. Perguntamos se poderíamos obter a certidão de casamento de meus tataravôs e ele nos respondeu que sim, mas somente em uma semana, pois a pessoa responsável por esse trabalho estava viajando – era época de carnaval. Deu-nos um papel para colocarmos os nomes de meus parentes e disse que entregaria à secretária quando ela voltasse. Pediu-me o telefone e percebeu então que éramos da cidade de São Paulo. Disse que sentia muito e perguntou se era urgente. Nós lhe dissemos que não era urgente, pois era para nossa genealogia. Ele então se baixou e pegou um livrinho de capa branca e entregou a Osiris dizendo que ele havia folheado o livro no dia anterior, e que era da secretária que estava viajando, e que havia notado que havia um capítulo com genealogia de algumas famílias de São João da Boa Vista. Osiris folheava o livro enquanto eu dava os nomes de meus bisavós a ele. Nesse meio tempo chegou um jovem padre, muito alegre e brincalhão que beijou a mão desse senhor que nos atendia. Ficamos sabendo que ele era o Cônego Máximo Cid Vaquero – Chanceler do Bispado. Uma pessoa de destaque na Diocese de São João da Boa Vista. Osiris então surpreso, folheando o livro, me disse: “Olhe, aqui está uma pessoa com o mesmo nome de seu bisavô – José Ferreira Rocha” ! Acho que estamos no caminho certo ! O Senhor Cônego então nos disse brincando: “Viu ? Eu sabia que vocês viriam então resolvi guardar o livro para vocês !!!”
Ele não tem idéia da verdade que disse ! Não tínhamos nenhuma pista de onde esse meu tataravô era originário ! Não sabíamos de que cidade vinha e quais eram seus pais ou parentes. Continuamos buscando o elo que o une às pessoas mencionadas no livro, mas é quase 99% de probabilidade que seja ele, ou um parente bem próximo dele, pois o sobrenome Ferreira Rocha não é muito comum na cidade de São João da Boa Vista, pois eles vêm da cidade Santa Rita do Passa Quatro no estado de São Paulo ou então de São João Del Rei no estado de Minas Gerais, segundo o livro. Foi novamente um outro empurrão dos Céus. Mais uma vez meu testemunho cresceu nesse novo encontro com meus antepassados.
Continuando nossas buscas, fomos a muitos lugares e visitamos vários parentes que não conhecíamos e que nos receberam de braços abertos. Marcamos então encontro para o dia seguinte com a família Cabral de Vasconcellos, muito importante na cidade. Não tivemos dificuldade para encontrá-los, pois são bastante conhecidos no lugar.
No segundo dia, tínhamos esse encontro mencionado e a intenção de irmos a Águas da Prata, pois tivemos notícia de que minha família alemã, Adlung, havia vivido por lá. Nosso encontro com os Cabral de Vasconcellos era as 16:30 horas portanto tínhamos a manhã e também parte da tarde para visitarmos outros lugares. Fomos ao Arquivo da Cidade, e nos demoramos um pouco porque não conseguíamos encontrar as pessoas. A manhã passou rapidamente e percebemos que talvez não teríamos tempo de ir a Águas da Prata nesse dia por causa do compromisso com os Cabral de Vasconcellos. Resolvemos ir almoçar num restaurante chamado Casarão, que fica no Centro ou bem próximo do centro e depois eu iria a um salão de beleza para lavar meu cabelo e fazer uma escova, pois havia esquecido de levar meu secador de cabelos e no hotel não havia nenhum.
Osiris estacionou o carro há alguns metros do Casarão, colocou o cartão de zona azul para duas horas e rumamos para o restaurante. Ao chegar no local vimos que estava fechado e que só abriria para o jantar. Fazia muito calor e ficamos bem desanimados. Não conhecíamos bem a cidade e não sabíamos onde ir. Lembrei-me então de um lugar onde eu havia visto muitas pessoas na noite anterior e haviam mesinhas fora, na calçada. Decidimos ir verificar se estava aberto e subimos uma ladeira até a avenida principal. Osiris não estava muito disposto a caminhar, pois a temperatura era realmente muito alta. Chegava à casa dos 40 graus e fazia muito sol. Eu estava admiravelmente disposta a caminhar, o que é raro, porque também não gosto de andar sob o sol quente. Insisti e subimos a rua. Ao atingirmos o topo da ladeira, não vimos o restaurante, pois ficava um pouco mais à esquerda e como havia uma pequena curva não se podia vê-lo. Osiris achou que devíamos desistir, pois e irmos para outro lugar. Eu insisti argumentando que, já que havíamos estacionado o automóvel, subido a rampa, não custava nada irmos um pouquinho mais adiante pois eu tinha certeza que era no próximo quarteirão. Ele não gostou muito, mas foi. Encontramos e estava aberto ! O nome do restaurante era `Tékenfim ’ – não me lembro como se escreve. Osiris apontou para a mesa que queria que sentássemos. Era no fundo do restaurante, em embaixo de um ventilador de teto, pois ele estava com muito calor e achou que lá seria melhor. Eu não gostei muito, pois queria sentar-me mais à frente, onde estavam mesinhas mais bonitinhas, próximas da calçada, mas não disse nada porque já havia insistido muito em irmos a esse lugar e não queria que ele ficasse aborrecido comigo com tanta insistência. Consenti em sentar-me onde ele indicou, sem reclamar. Como esse restaurante ficava numa galeria, a parte de trás dava para um corredor e outras lojas. Sentamos onde havia uma porta aberta através da qual podíamos ver um salão de cabeleireiro e as moças trabalharem. Lembrei-me de que tinha que lavar meus cabelos e fazer uma escova, e achei aquele lugar muito conveniente, pois o que não falta em São João da Boa Vista são Salões de Beleza e Dentistas. Existem muitos ! Mencionei a Osiris que seria bom eu fazer a escova ali mesmo pois ainda sobrava mais ou menos 30 minutos de estacionamento. Ele concordou dizendo que era uma boa idéia. Ele me esperaria, pois não havia ninguém nesse momento no Salão. Então fomos até a recepcionista e perguntei quanto tempo ela levaria para lavar e fazer uma escova no meu cabelo. Ela respondeu que levaria meia hora, no que eu admirada lhe disse : Meia hora ? Mas meu cabelo é curto e seca rapidamente ! Ela então me disse que talvez 20 minutos seria o suficiente. Osiris decidiu que seria melhor ele ir andando e ir ao Arquivo da Cidade para entregar uns documentos em vez de me esperar e que seria mais seguro voltar em meia hora, no que eu concordei.
A moça que lavou meu cabelo e fez a escova, me perguntou se eu estava fazendo turismo na cidade. Eu lhe disse que minha visita era somente para fazer genealogia e para conhecer meus parentes que eram muito antigos no lugar. Disse também que estava muito feliz porque já havia encontrado alguns parentes. Os Cabral de Vasconcellos.
Ela terminou meu cabelo em 15 minutos. Fui pagar e ao fazê-lo brinquei com a recepcionista, que era a dona do salão e que havia me dito que levaria meia hora e lhe disse que agora ela teria que me aturar lá no salão ate´que meu marido voltasse. Ela riu e disse que tudo bem, que não haveria problema algum. Disse-me então que havia ouvido eu dizer à outra moça que me penteou, que eu estava na cidade para fazer genealogia e que ela também gostaria muito de fazer genealogia para saber de onde vieram seus antepassados, pois havia descoberto à pouco tempo que eram da Suécia ao ver um nome estrangeiro na certidão de nascimento de seu pai. Na ocasião ela perguntou a seu pai que nome bonito era aquele, pois ela gostaria de ter tido como seu nome. Ele lhe disse que sua avó era estrangeira e não sabia nada mais.
Eu lhe disse então que se sua bisavó era sueca devia ter sido amiga de meus bisavós que eram alemães pois é natural que os estrangeiros que têm origens semelhantes se unam em guetos. E em seguida lhe perguntei qual era o seu sobrenome, pois sabia que havia um cidadão na cidade, Sr. Jaime Splettstoser Jr., que estava fazendo um estudo sobre os alemães, suecos, dinamarqueses e austríacos na cidade e que talvez soubesse alguma coisa sobre nossos antepassados. Ela então me respondeu que o sobrenome era um tal de Adelung !
Eu não podia acreditar !!! Adlung ??? Então lhe disse que esse era o sobrenome de meu bisavô, e que era alemão e não sueco como ela pensava. E que a sua bisavó devia ser Emília ou Ema !!! Ela me respondeu que achava que era Ema. Ema era a irmã de meu avô, a quem eu estava procurando, pois era a única que ainda não havia encontrado até o momento. Comecei a chorar... não podia acreditar que mais uma vez o outro lado do véu trabalhou intensamente para eu pudesse encontrá-la. Tudo nos levou a esse salão de beleza. O fato do Casarão estar fechado e já estarmos com o carro parado em um bom lugar, a minha insistência em ir ao Tékenfim apesar do calor causticante, a escolha de Osiris ao indicar a mesa à qual deveríamos sentar, o fato dela dizer que levaria meia hora para lavar e secar meus cabelos e com isso termos tido a oportunidade de conversar nesse tempo que restava, a casualidade dela ter lido a certidão de nascimento de seu pai uns anos antes e ter guardado o sobrenome Adlung em sua memória, não pode ser por acaso.
Gostaria de mencionar também que já havia perguntado por toda cidade se conheciam alguém chamado Adlung por lá, mas ninguém conhecia nenhuma pessoa com esse sobrenome, pois Ema Adlung se casou com um Silveira no início do século 20, seu filho tinha o nome Silveira e ela , a quem eu havia encontrado, se chamava Maria Célia Silveira e seria difícil de ser identificada como descendente dessa minha tia-avó. São João da Boa Vista tem quase 80 000 habitantes, e não seria fácil procurar em todos os livros da igreja e do cartório os descendentes de Ema, não sabendo sequer onde eles estavam e se eram mesmo desse lugar. Por essa razão tínhamos planos de ir a Águas da Prata, pois nos haviam dito que eles eram colonos numa fazenda nessa cidade antes de virem para São João da Boa Vista. Tínhamos a esperança de encontrar a certidão de casamento dela ou outro documento qualquer que indicasse onde eles estariam.
Sei que foi o Senhor que nos ajudou. Não tenho a menor dúvida disso, pois Ele tem me ajudado muito todos esses anos na busca de meu antepassados que seria muito ingrata se os considerasse coincidências.
O Espírito foi tão forte quando Maria Célia me disse que o sobrenome de seus antepassados era Adlung que comecei a chorar. Ela não entendeu porque eu chorava. Não sabia que por trás de tudo isso havia muita oração, anos de procura e muita expectativa. Não tinha idéia que naquele momento havia muita gente do outro lado véu festejando esse nosso encontro tão esperado. O Senhor havia mais uma vez permitido que encontrássemos nossos parentes e antepassados. Sou muito grata a Ele por sua misericórdia e amor.
P.S.: Hoje é dia 22 de junho de 2003. Esta semana adquiri uma cópia do livro do Sr. Jaime Splettstoser Jr. entitulado – ‘Alemães, Suecos, Dinamarqueses e Austríacos em São João da Boa Vista’ , que foi lançado a semana passada. Ele fez muita pesquisa nos livros do cartório de São João da Boa Vista, nos livros da igreja católica e muitos outros livros históricos da cidade assim também como em muitas outras cidades vizinhas e não encontrou mais ninguém que fosse Adlung. Nem mesmo sabia da existência dos descendentes de Ema Adlung em São João da Boa Vista . Eu lhe telefonei para congratular-lhe por seu bem elaborado livro e lhe contei que havia encontrado a Maria Célia e ele ficou admirado, pois havia pesquisado muito para encontrar os descendentes dessas famílias estrangeiras que mencionei acima e não havia encontrado mais nenhum Adlung . Ele nasceu e mora nessa cidade e os descendentes de Ema também, e nunca se encontraram (descobriram) . Ele conhecia Maria Celia Silveira, mas nunca soube que ela era uma descendente dos Adlung. Isso aumentou ainda mais meu testemunho sobre essa obra maravilhosa. Sei que os encontrei em poucas horas porque que meus antepassados estão orando fortemente do outro lado do véu e o Senhor me guiou até eles. Ele nos ajuda a encontrá-los, como tem feito durante todos esses anos com as famílias que tenho buscado. Ele tem entregado em minhas mãos os documentos para eu encontrar meus antepassados e seus descendentes. É um milagre atrás do outro. Sou muito grata por Sua grande e maravilhosa ajuda, pois caso contrário não teria tanto êxito com tenho tido.
Nota: O autor do livro "Alemães, Sueco, Dinamarqueses e Austríacos em São João da Boa Vista", quando estava fazendo suas pesquisas na cidade, espalhou cartazes por todo lugar pedindo aos descendentes das pessoas desses países que entrassem em contacto com ele. Célia Maria Silveira não sabia que era descendente de alemães e nunca se comunicou com ele. Ele então resolveu olhar na lista telefônica de São Paulo, Capital, e buscar 'Adlungs' que havia descoberto nos cartórios de registros de São Jõao da Boa Vista. Encontrou na lista minha tia e minha mãe e escreveu para elas. Como elas sabiam que eu estava fazendo genealogia e havia encontrado algunsAdlungs, resolveram mandar as cartas para mim . Eu copiei tudo que tinha encontrado sobre minha familia alemã e enviei ao Sr. Jaime Splettstoser Jr.. Ele ficou muito agradecido e colocou em seu livro a genealogia que eu tinha sobre minha familia alemã. Existe um capítulo no livro sobre os descendentes de Paulo Adlung (Senior).
MEMÓRIAS DE MINHA TIA AVO (1898-1988)
Escrito entre 1978/1979 em São Paulo, Capital
Transcrito por sua sobrinha-neta, Ivani Rivera Cabral
Eu nasci no anno de 1898, me chamo Rosalina Rivera; Pecoraro do meu marido .
Sou filha de Alexandre Rivera e Filomena DeMeo. Meus pais casaram-se no Brasil, em Araraquara, estado de Sao Paulo, em 1893 dia 24 de fevereiro; em 24 de dezembro de l893 nasceu a primeira filha que recebeu o nome de Maria Vitoria. Depois de 14 mezes nasceu um menino que recebeu o nome de João Rivera.
Naquele tempo surgiu uma epedemia de nome Febre Amarela. Todos fugiam de Araraquara, e assim também meu pai resolveu vender tudo e a pequena loja de calçados; e foram-se embora para a Itália mas, a minha irmã Vitória não pode viajar por ter dor de olhos e assim ficou com os meus avós. Meus pais ficaram um pouco de tempo na Itália e de lá foram para a Argentina, em Buenos Aires e la nasceu quarta filha que recebeu o nome de Felicia; tendo deixado Vitoria no Brasil ficou com os dois filhos João e Felicia, que nasceu na cidade de Buenos Aires. Mas quando a Felicia tinha 8 mezes de idade, minha mãe recebeu uma carta do Brasil noticiando o falecimento de meu avo Rafael De Meo, pae de minha mãe, vitimado pela tal epedemia de febre Amarela; e pedia a minha mãe que fosse buscar a Vitoria que tinha ficado no Brasil, porque a minha avó tinha ficado viuva e não tinha mais possibilidade de ficar com a criança. Mas pouco tempo depois o meu irmãozinho adoeceu , e em pouco tempo menos de 24 horas lhe deu uma meningite galopante que morreu como de repente; minha mãe contava que nesse dia estava preparando uma festinha para o batizado de Felicia , e disse que quando voltaram da igreja foram ver o menino no berço estava dando o ultimo suspiro; meus pais quase enloqueceram de tanto disgosto; e ahi resolveram vir buscar a Vitoria que estava aqui e minha mãe veio sozinha com a Felicia que tinha 8 mezes de idade, ficando agora com duas filhas Vitoria e Felicia, logo nasceu outro menino que recebeu o nome de João, meu pai tanto queria um filho chamado João, mas Deus não quiz e assim quando ele tinha 11 mezes tamberm morreu, logo depois minha mãe ficou grávida e esperava tanto um menino, mas ela ficou tão gorda que todos falavam de serem gemeos,tinha uma barriga enorme, mas quando deu a luz, foi uma surpresa em vez de dois meninos que esperavam nasci eu com 5 quilos e meio disseram que eu era tão grande e com os olhos abertos e que era um terremoto nao deixava dormir que eu era muito chorona, mas graças a Deus ate hoje com 80 anos e meio ainda estou em forma, trabalho, faço crochê, bordo sou muito lucida mas sei que estou no fim. Depois de menos de 2 anos nasceu outro menino, que por medo que morresse não puzeram o nome de João, mas sim Alexandre, esse sim viveu e foi queridinho do meu pae, ele foi tão mimado que era o Rei da casa, depois de menos de 2 anos nasceu a Elisa essa foi a ultima filha; em 10 anos de matrimonio minha mãe teve 7 filhos, a 1a. Vitoria, o 2o. João, a 3a. Felicia , o 4o. João, 5a. Rosalina, 6o. Alexandrino, 7a. Elisa; depois parou; mamãe com 34 anos não teve mais filhos; nascemos todos os ultimos 5 filhos na Argentina, mas papae gostava muito de viajar, que nenhum dos filhos nasceu na mesma cidade; so a Vitoria e o primeiro Joãozinho que nasceram em Araraquara. Meu pae contava que veio da Italia com 17 anos ele era o ultimo filho de João Rivera e sua mãe chamava-se Felicia Latanzze, quando ele tinha 6 anos de idade o pae faleceu que seria meu avo, deixando minha avo Felicia com 4 filhos sendo a primeira mais velha de nome Arcangela, a segunda de nome Luizela, talvez Luiza, e o outro Nicola e avó sofreu muito , ficando com 4 filhos sem ter recurso para sustenta-los , a filha mais velha que era a Arcangela a unica que era casada estava melhor de situação, e ajudava um pouco sua mãe, essa minha tia tinha muita diferença de idade com meu pae podia ate ser mãe dele. Minha avo coitada passou muitas dificuldades na vida, meu pae contava que ela sabia tecer, antigamente quase todas as mulheres aprediam a tecer, todas tinham o tear em casa e teciam todos os tecidos que necessitavam. Assim a minha avo para ganhar o sustendo dos filhos, ia tecer o dia todo, mas sempre na casa de boas familias que as conheciam, mas o que ganhava era tão pouco,que não dava para matar a fome dos pobres filhos, e quantas vezes meu pobre pae dizia que noites inteira não podia dormir por tanta fome que tinha. Contava que com 6 anos que ele ficou orfão ja começou a trabalhar, eu tinha tanta pena quando ouvia os trabalhos pesados que lhe davam so para ganhar um pedaço de pão; ele contava que por isso não teve recurso para poder ir numa escola aprender a ler e escrever, com 6 anos precisava fazer qualquer serviço ajudava numa sapataria mandavam fazer serviços para ganhar alguns soldos assim ele dizia, e ele ficava tão contente de trazer aquele dinheirinho para a mãe dele , as vezes ganhava um pão, ele guardava com tantcarinho para levar para a sua mãezinha; a mãe o abraçava e chorava comovida dizendo Deus te abençoe meu filho querido, ela sabia que ele não tinha comido para levar e fazer surpresa para a mãezinha delle. E assim por diante foi a vida de essa pobre familia. E assim ele atingiu a idade de 17 anos ja trabalhava numa sapataria e podia ajudar um pouco melhor sua mãeque era minha avó. O irmão de meu pae, Nicola aprendeu tocar Clarinete e foi um grande clarinetista mas tambem era bem mais velho que meu pae que era o caçula. Estou contando um pedaço da historia da vida de meu pae para saberem como ele com 17 anos foi parar na Argentina. Na Italia a primeira irmã de meu pae que era casada com um homem chamado Pascoal de Pace que estavam mais ou menos bem e que as cousas peoraram e ele tambem ficaram na miseria; então pensaram de fazer a America ganhar mais e decidiram vir para Argentina, mas eles tinham uma filha so, e pape contava que era uma moça de rara beleza dizia papae que essa minha prima era tão linda de olhos azuis; ele dizia que quando via a irmã do Renato a Amelia era tão parecida e tambem se chamava Amelinha. Os meus tios , Arcangela e Pascoal decidiram vir para a Argentina; então eles deixaram essa linda moça com apenas 15 anos na casa da minha avó Felicia. Quando chegaram na Argentina meu tio se empregou numa fazenda como administrador e a minha tia como governanta do rico fazendeiro. Minha avo*(nota do transcrevente - *TIA ) nao se acostumava e chorava o dia todo, tambem por deixado a sua filha tão longe, não se conformava e chorava, chorava; ate que um dia o fazendeiro perguntou-lhe porque chorava tanto ? Ela então contou-lhe que alem de estranhar outra terra, ela chorava por ter deixado na Italia na casa da mãe dela, a sua unica filha que tanto adorava. O fazendeiro achando a minha tia muito bonita, sadia, corada, trabalhadeira; então perguntou-lhe; a sua filha e bonita como a senhora? Minha tia ficou sem geito e respondeu; minha filha e um anjo nao se pode comparar comigo, ela tem apenas 15 anos ela e um amor de moça. Ele então ficou um pouco calado e disse quero falar com o seu marido. O Fazendeiro era um homem de uns 40 anos, rico mas bastante cafona, caipira; so tinha bastante dinheiro mas não era simpatico era bem grosso. Quando foi o dia seguinte foi falar com meu tio Pascoal, marido de minha tia Arcangela; e o fazendeiro disse-lhe senhor Pascoal; vendo a situação que a sua senhora chora o dia todo com saudades de sua filha que deixou na Italia; eu quero-lhe fazer uma proposta; eu sou rico ela sendo bonita como a mãe, eu quero que voces consentem que me case com ela. A pobre tia quasi teve um colapso pensando na bela menina; com aquele homem bem mais velho e um tanto feio. Ma o meu tio estando numa triste situação, respondeu-lhe que ia pensar e depois lhe dava a resposta. O Fazendeiro prometeu-lhes que eles não precisariam trabalhar mais, que a filha seria a Dona de todos as propriedades que ele possuia; alem da fazenda tinhas muitas casas; criações era mesmo muito rico, mas tambem muito cafona e bem mais velho. Depois meu tio, conversou com a mulher dizendo que era otimo negocio; so assim se salvariam da triste situação em que se achavam; minha tia não se conformava e chorava mais ainda; mas meu tio disse que se não aceitariam ele exterminaria toda a familia. E assim a moça estava com minha avo na Italia e meu pae que era tio da moça moravam com minha avo. Um bello dia receberam uma carta da Argentina, com dinheiro e duas viagem, uma para moça Amelinha e outra para meu pae para acompanha-la ate na Argentina aonde se encontravam os paes. E assim com o dinheiro que chegou compraram muitas roupas e meu pae com a sobrinha vieram para Argentina. Meu pae contava que quando tomaram o navio a viagem naquele tempo era muitos dias de viagem uns 30 dias ; ele contava que muuitos rapazes se enamorava da mocinha, nao que ele lhe desse confiança é que era muito bonita e não deixavam de admira-la. Meu pae que era de nervos e ciumento teve uma briga com o capitão que gostava da menina, meu pae teve que lhe dar um soco no rosto, e foi preso trez dias. Bem quando chegaram na Argentina na casa dos paes, a pobre menina teve essa linda surpresa ja estava comprometida, com o tal fazendeiro. Ninguem pode imaginar como a pobre moça ficou; O pae de revolver em punho chamou a filha e lhe contou a situação em que se achavam e disse que o fazendeiro propos-lhe casamento e o pae aceitou e foi assim que ele mandou a viagem para ela e meu pae para acompanha-la caso ela não quizesse ele exterminaria com toda a familia començando pela filha; nao teve outro remedio que aceita-lo e casaram-se e tiveram muitos filhos. E foi assim que meu pae se achou na America, tinha então 18 anos; e ficou rodando na Argentina ate 32 anos sapateiro’ contava ele que nunca mais viu a mãe delle, a minha pobre avo morreu de saudades’ quando meu pae contava ele chorava; nunca teve uma chance de visitar a mãe pois o tal fazendeiro era pão duro que nunca ajudou a ninguem . Depois de tantos anos ele que gostava de viajar veio no Brasil, na mesma epoca tinha chegado da Italia meu avô materno Rafael De Meo, e na mesmo hotel (h)ospedou-se meu pae então solteiro, e ele logo fez amizade com meu avô. O meu avô tinha vindo da Italia de uma cidade chamada Campobasso, ahi conheceu meu pae e ficaram amigos, meu avô disse que estava esperando a familia que devia chegar aqueles dias ; depois de uma semana chegaram a familia era grande eram 6 filhos todos jovens. O primeiro tio Nuncio De Meo, 0 2o. Domingos De Meo, Filomena De Meo, Delicada De Meo e tia Lucia de Meo; diiz meu pae que todos eram bonitas mas apaixonou-se por Filomena De Meo minha mãe, e assim depis de 2 ou 3 mezes casaram-se em Araraquara no dia 24 de Fevereiro de 1893 e no mesmo ano nasceu a primeira filha Vitoria e na mesma cidade nasceu tambem João Rivera, e de la ja contei que por causa da febre amamrela elels foram para a Italia e de la para Argentina onde nasceram mais 5 filhos . Depois de algum tempo meu pae adoeceu, com umas dores nos rins, chamaram o medicp; e o medico receitou-lhe os remedios. Mas infelizemente erraram e no meio de outros remedios por engano deram-lhe um veneno chamado straquinina ( estriquinina* ) . Minha mãe não sabendo dava-lhe em colheradas; ficou em estado de comma, nao conhecia mais ninguem, estava completamente envenenado; e dahi em diante minha poble mãe , então com 5 filhos sofreu tanto que nem se pode imaginar; e meu pae foi piorando e os medicos não lhe davam esperança de viver, disseram que so um milagre podia salva-lo; asim ficou internado n’um hospital 3 mezes; e minha mãe teve que aguentar a sapataria e tratar de todos nos e de tudo. Quando meu pae ficou um pouco melhor; mas nem podia andar tinha ficado tão magro, que ninguem lhe dava um mez de vida. Meu pae vendo na Argentina não tinha mais possibilidade de trabalhar, pensou trocar de clima, e vendeu tudo o que possuia na Argentina e com toda a familia fomos para a Italia. Na Italia ficamos um nao conhecemos os lugares aonde eles tinha nascido, Guglionezi, Campobasso, e assim por diante viajamos um pouco. Quando estava acabando o dinheiro, resolveu vir para o Brasil e aqui estamos ate hoje. Chegamos aqui no Brasil em 1904 eu tinha 6 anos o Alexandre 4 anos a Elisa 2 anos , Felicia 8 -1/2. Vitoria 11 anos. Meu pae não ficou em S. Paulo, começamos a vida pelo interior do estado primeiro lugar foi Ouro Fino estado de Minas Gerais, depois Jacutinga, Vargem Grande, Cordeiropolis, Cascavel, Santa Rita do Passa 4, Brotas, Barretos e afinal S. Paulo onde ja fazem 66 anos que estamos aqui. O tempo que passamos no interior foi uma vida dura; papae sempre teve sapataria, na qual mamãe ajudava muito, minhas irmãs mais velhas Vitoria e Felicia eu com minha irmã Felicia faziamos todo o serviço da casa; eu com a idade de 9 anos ja fazia comida, com 11 anos fazia pão, torrava café, moia, fazia comida para 14 pessoas, sendo 7 da familia e os outros 7 oficiais sapateiros que almoçavam em casa; fomos pouco tempo na escola mas graças a Deus sei muito bem ler e escrever, e alem de mais ou menos portuguez, sei ler italiano e castelhano, sei fazer qualquer conta de somar, dividir, multiplicar e diminuir, sei trabalhar fui otima pespontadeira , aprendi sosinha a bordar, costurar fazer croche, foi tudo pela vontade de Deus, sempre ganhei o pão de cada dia. Em 1912 meu pae veio para São Paulo com toda familia; ficamos provisorio na casa dos parentes de minha mãe. Os irmãos De Meo, os parente de mamãe, eram um tanto orgulhosos,e faziam pouco casa de nós; e assim meu pae logo procurou uma casa para morar, com uma loja na frente. E assim fomos morar na rua Benjamim de Oliveira, no Braz. Na frente da casa meu pae poz ( colocou ) uma loja de calçados; mas aqui em São Paulo, é muito diferente do interior; não deu nada; e foi obrigado a fechar a loja. Ai meu pae queria voltar para o interior; mas nós não queriamos, pois eramos todos moços e gostamos de estar em S. Paulo;a Vitória tinha 19 anos, a Felicia 17, eu 14 o Alexandre 12 a Elisa 10 e foi assim que resolvemos ficar aqui; e vivemos com o nosso trabalho. Meu pae ia buscar o serviço de presponto, e nós as quatro irmãs trabalhavamos o dia todo, levantando as 4 da manhã até as 11 da noite, sem parar um minuto para poder alcançar com as despesas. De maneira que não tivemos juventude, só conhecemos o trabalho, nunca fomos a um baile, nunca fomos passear com amigas; a nossa amiga era a nossa mãe; trabalhavamos a semana inteira, e até o dominga até 11 horas; e depois éramos livres para fazer limpeza da casa. Apesar de tudo isso, nunca namoramos, mas mesmo assim quantos moços, que passavam pela nossa casa, e viam nós sempre trabalhando, nunca na rua e nem na janela, eles não sabiam como se comunicar com a gente, então eles mandavam declarações de amor por cartas. Mas meu pae fazia eu ler, e logo mandava a resposta, dizendo que iria tomar informações, caso fosse um bom partido ele consentia. Mas as minha irmãs sempre achavam defeitos; e nenhum era aceito. E foi sempre assim mas com a vontade de Deus, casamos todas, mas sem namorar; por sorte fomos todas felizes; estavamos acostumadas a trabalhar tanto, sem divertimento nenhum, nosso pae sempre bravo, e nossa mãe sempre doente; sofria de uma terrivel bronquite asmática de maneira que nossa vida foi um inferno, nao tinhamos liberdade nem de por os pés na calçada de nossa casa, só de vez enquando saiamos com toda a família, e o nosso passeio era dar umas voltas no Jardim da Luz; que naquele tempo existia um coreto onde tocava a banda da Força Pública; e como meu pae gostava de música, ele nos levava, mas com toda a família, esse era nosso único passeio. Depois de estar em S. Paulo 3 anos na casa da rua Benjamim de Oliveira, mudamos para a rua Piratininga nº 70; ai achavamos que tinhamos ido para o ceu; a rua era mais bonita, passava bonde, e assim a gente tinha direito de olhar para a rua; isso porque nós trabalhavamos na sala da frente, tinhamos a oficina de presponto; eramos as 4 irmãs juntas com nossa mãe; começavamos as 5 horas da manhã, e terminavamos as 11 da noite; e o serviço de nosso pae era entregar, e buscar outro; mas o nosso consolo podiamos olhar para a rua, e ver os bondes que passavam, mas sempre dentro de casa. Mas assim mesmo dava para tirar uma linha com alguns jovens que estavam no bonde. E foi assim que a Vitória conheceu primeiro marido o Angelo Marmo; e ele passava todos os dias de bonde para ir trabalhar, e olhava sempre para a nossa casa, e via nós todas sempre trabalhando, nunca na janela e nem na porta ou rua, sempre dentro de casa. Como ele tinha vontade de casar-se pensou em casar-se com uma de minhas irmãs; eu era ainda muito moça; mas a Vitória e a Felícia ja tinham idade para casar; mas de que jeito ele poderia falar com uma delas ? Não havia jeito nós nunca saímos. Mas um domingo ouvimos tocar a campainha e fui abrir a porta. Era um belo jovem que queria falar com a minha mãe. Eu chamei mamãe e o rapaz, falou com a mamãe dizendo que queria casar-se com uma das filhas, e apontou a Felícia. A mamãe disse que a Felícia era a segunda filha, e o nosso costume era casar a primeira, ele então respondeu, que ele admirava todas da família, que para ele tanto fazia ou a primeira ou a segunda; ai ele ficou de voltar depois de 8 dias para o papai tirar informações para saber se era um bom moço, trabalhador e de boa família ; durante os 8 dias, meu pae informou-se e teve boas informações; e depois de 3 meses de noivado casaram-se com muita simplicidade e tiveram 3 filhos, que são Rafaela, Mario e Angelina; o Mario faleceu com 54 anos. O casamento da Vitória com o Angelo durou só 6 anos, deixando-a viúva com os tres filhos, que n’aquela época a Rafaela tinha 5 anos e o Mario com 4, a Angelina com 2 anos. Depois do falecimento do Angelo a minha irmã Vitória veio morar na minha casa, porque eu morava com meus paes eu fui a ultima filha a se casar, e foi por isso que meus paes ficaram morando comigo. Depois de tres anos a Vitória casou-se, a outra irmã tambem casou-se com um rapaz que por acaso viu a Felicia no cinema e companhia com toda família, acompanhou-a e pediu em casamento, sabendo que era uma boa moça de boa família. Tambem foi aceito e em 6 meses tornaram-se marido e mulher; que são Felícia e Ottílio Cattini, na qual foram muito felizes ainda o são, dia 15 deste mes de agosto fizeram as bodas de diamantes, e se Deus quizer farão de brilhantes. O terceiro filho a se casar foi Alexandrino casou-se com menos de vinte anos, com uma linda moça chamada Maria, apelido Mariucia; mas meu irmão, tambem era muito bonito e era um pouco mulherengo e não iam muito de acordo; mas chegaram a ter 5 filhos, o 1o. Renato, o 2o. Antoninho, o 3o. João 4a. uma linda menina de nome Amélia que faleceu com 9 anos de idade foi uma pena ! E depois nasceu o último com o nome de Clóvis; mas depois de tantos anos teve separação que desgostou toda a família, se ajuntou com outra, e foi o maior erro de sua vida; mas a vida tem sempre coisas tão tristes, faz um ano que faleceu o melhor dos filhos, o querido e inesquecível Antoninho, era um amor de filho, de pae, de sobrinho amigo, ele era um anjo, Deus que o tenha no Reino do Ceu. Depois casou-se a última filha a caçula de todas; ai eu fiquei sozinha e todo o serviço que faziamos as 4 filhas. Tinha que fazê-lo sozinha; ninguem imagina que tristeza de ficar sozinha, trabalhando d a 5 da manhã até as 11 da noite, alem de trabalhar tanto, que saudades da Elisa ! Nós nos davamos tanto; como eu queria bem a ela ! Como eu sentia falta dessa querida irmã. Assim continuei essa vida triste. Mas como Deus é tão bom, um dia meus paes me levaram ao cinema, mas quando nós íamos ao cinema só de camarote, ou friza, que meu pae tinha receio que alguem viesse sentar-se perto de mim se não tivesse camarote ou friza não íamos ao cinema; mas aquele dia fomos a noite no cinema e encontramos camarote naquela mesma noite o meu querido José tambem tinha ido assistir o tal filme, e da platéia olhou no camarote onde eu estava, e apaixonou-se por mim, e me acompanhou até na rua do Hypódramo no. 74. Mas no dia seguinte em vez de me ver na janela via sempre meu pae e não dava jeito de falar comigo. E assim passaram-se muitos dias, ele passando e eu nunca podia ficar na janela para ele vir falar comigo; e assim só depois de algumas semanas, fomos outra vez no cinema, mas sempre com toda a família, e do mesmo jeito não deu para falar comigo. Depois de um foi celebrado o casamento de minha irmã Elisa. Foi no dia 14 de julho naqueles tempos era dia feriado. Naquele dia eu estava tão triste; ia ficar sozinha; as quatro horas foi o casamento . Eu fui casamento com a minha irmã Vitoria e com o marido, meu cunhado Angelo e com os dois filhos, Rafaela e Mario. A Angelina ainda não tinha nascido. Enquanto nós iamos acompanhado o casamento, o Angelo, meu cunhado dizia para mim: agora so falto voce casar-se, mas teu dia chegara dizia ele. Eu então respondi, sabe Angelo, tem um rapaz que gosta de mim, esse tal moço que eu falava era o meu querido José, que ele não tendo a oportunidade de falar comigo,ele deu um geito de falar com o meu pai, ele se fez acompanhar de um cunhado Chiapeta e assim eles se animou e foi falar com o meu pai, me pedindo em casamento. Mas meu pai perguntou-lhe o que ele fazia; que oficio ele tinha; ele respondeu que era barbeiro. Meu pai não gostava da profissão mas respondeu-lhe qu iria tomar informações sobre, a familia em fim saber se era um bom moço. E assim eu contei a meu cunhado Angelo. Meu cunhado quase revoltado falou alto comigo, dizendo que barbeiro não era oficio, era profissão de vagabundo, de afeminado, que não era para eu aceitar, que era para eu mandar ele passear. E assim eu fiquei tão triste, eu tinha simpatizado com ele, eu achei ele tão bonitinho, tão bonzinho e tudo de repente desmoronou, não era para aceitar só porque o que o coitadinho era barbeiro. Quando acabou a festa de casamento da minha querida irmã Elisa; voltamos para casa; ai era eu, minha mãe meu pai. Então meu pai dizia pelo caminho agora veja de levantar bem cedo; que voce deve dar conta de todo o trabalho que faziamos em duas, tinha que ser feito no por mim. Voces imaginem que sacrificio. O dia seguinte do casamento; levantei-me bem cedo, e muito triste sozinha enfrentar um batente bem pesado; fazer todo o serviço de casa; e trabalhar de pesponto, tinha que fazer o mesmo serviço que faziamos em duas. Minha pobre mãe era doente, sofria de bronquite asmatica, nada me podia ajudar; meu pai sempre nervoso; eu só tinha que ganhar para toda a despesa . Eu esse dia chorei tanto; de soluçar; pela falta de minha querida irmã Elisa, que eu gostava tanto dela, era uma grande companheira, uma grande amiga; eu me vendo só trabalhando tanto com tanta amargura, era só chorar, chorar, sem parar; e depois lembrando-me que não era para aceitar o pedido de casamento do José; que vida triste era para mim sem liberdade, sem nunca sair de casa de que jeito eu podia arranjar namorado. Nesse dia pelas 11 horas da noite, cansada de tanto trabalhar e chorar; abri a janela, ja era hora de dormir, mas não fui porque abri a janela; e quanto foi minha surpresa! Vejo a José enfrente a minha casa; esperando que eu saisse na janela para saber se podia vir receber a resposta do pedido de casamento que ele tinha falado com o meu pai. Bem eu era para dizer que não iam aceitar por não gostarem da profissão dele. Mas eu que estava tão triste e sem esperança nenhuma de que jeito arranjar namorado ? E depois eu gostei dele, achei-o tão simpático, tão bonitinho; ai eu mesma decidi. Assim que eu abri a janela ele chegou-se a mim e embaixo da janela me disse que ja fazia duas horas que estava enfrente de minha casa, e que tinha fumado dois maços de cigarros, e eu nada de abrir a janela. Eu abri a janela só por acaso, foi para refrescar a minha vista de tanto chorar e trabalhar. Mas quando ele perguntou se podia receber a resposta, eu disse que sim pensei bem; não me importa que a profissão dele não era das melhores, contanto que era um bom moço trabalhador eu decidi que vou me casa com ele, e como trabalho tanto para meu pai; trabalharei até a morte se for preciso. E assim ele veio no domingo seguinte e a resposta foi afirmativa e ai por diante fiquei noiva do meu querido José Pecoraro. Depois de oito meses de noivado que foi no dia 24 de julho de 1921, casei-me no civil no dia 5 de fevereiro no religioso, dia 23 de abril de 1922. Nos casamos no civil uns meses antes pensando que meu pai desse um pouco de liberdade, pelo menos acompanhando-o na porta, mas se enganou; porque meus pais não deram liberdade nenhuma. Com muito custo so no dia do casamento religioso. Mas para o cumulo do azar, moramos com eles, e mesmo casados, não tinhamos liberdade, não deixava nem dar um beijo quando ele ia trabalhar. Casamos e nem viajamos no dia seguinte, eu tinha medo de sair do quarto, me parecia ter feito o maior crime do mundo. Aquele dia nem tomamos café, meus pais com uma cara de raiva, nem me quero lembrar que lua de mel; mas pareceu de fel. Com é triste ser pobre!Quando casou-se a Felicia que casou-se com um moço de mais poder, todos alegres fomos acompanhar-los na estação da Luz, eles iam viajar para o Rio de Janeiro; ela toda bem vestida de chapéu no trem de vagão leito, e quando voltaram; meus pais os receberam com um bom almoço ao contrario de nós, nem um café. Aquele dia, só jantamos porque eu mesma fiz um pouco de comida.
No dia seguinte comecei a vida de trabalhar morando com meu pai, ainda continuava escrava, não só eu mas ele tambem coitadinho. Mas com tudo isso me senti tão feliz com o meu querido José, meu adorado marido que Deus me deu. Fomos muito felizes, apesar de sempre trabalhar, mas trabalhei com todo o amor; ele nunca me obrigou a trabalhar, trabalhei sempre de minha vontade, e amava e adorava meu querido marido. Ele gostave de comer comida bem feita, e eu caprichava, sempre fazia macarrão feito em casa, fazia todos as qualidades de comida, ele me elogiava, gostava de tudo o que fazia. O primeiro filho, nasceu dia 3 de dezembro de 1923, mas foi registrado em 6 de janeiro de 1924. Nessa ocasião ainda estava na casa de meus pais. Depois fiquei grávida de meu segundo filho, mas não nasceu na casa de meus pais; nessao ocasião eu ja tinha mudado, fomos morar sozinhos n’uma casa na rua Maria Marcolina no. 70. Foi depois da revolução de 1924, o Nelson tinha 6 meses e eu estava grávida do Ruben. Ninguén pode imaginar o que passamos n’essa revolução. Fujimos de um lado para o outro; apanhamos um pouco de roupa, tudo às pressas, porque os soldados ja estavam fazendo trinheiras nas ruas, e fomos obrigados a deixas as casas. Saqueavam, arrombavam , roubavam, e assim fomos obrigados a fugir. Imagine eu com o Nelson de 7 meses, e grávida de cinco meses, fugimos quase sem roupas, não deu tempo nem de pegar o necessário; todos sem agasalhos apenas com a roupa do corpo, com pouco dinheiro, iamos um pouco em cada lugar que não tinha trincheira. Mas os dias iam passando e a situação piorava, parecia estar mesmo em guerra; os bombardeios não cessavam; as metralhadoras se faziam ouvir a noite toda, ninguem imagina o medo. Fomos passar uma noite na casa do tal Chiapeta, cunhado de José; mas durante a noite os bombardeios e metralhadoras pareciam acabar com o mundo; fomos obrigados a abrir o assoalho e nos enfiarmos todos no porão. Estava cheio de poeira, ratos, imaginem eu com o Nelson e grávida embaixo no porão. O Nelso chorava e eu com uma espiriteira fazendo chá de erva-doce. O porão estava cheio de poeira, ratos nase pode acreditar o que passamos n’aquela noite...
No dia seguinte fugimos para Jundiaí. O José com um saco nas costas cheio de roupas, latas de leite, para o Nelson, ele tinha desenteria e não havia roupa que chegasse. Alugamos um quarto em Judiaí mas era um quarto sem forro e de chão de tijolos; fazia um frio de rachar que penitencia meu Deus!
A revolução durou mais ou menos um mes. Quando voltamos para São Paulo parecia um cemitério, tudo triste , muitos perderam parentes, morreu muita gente, não foi brincadeira; foi uma verdadeira guerra. Chegando em casa encontramos estilhaços de granada, balas deflagradas de carabinas, todas as casa com furos nas paredes e balas de metralhadoras. Depois de quatro meses nasceu meu querido Rubens, dia 8 de dezembro justamente quase no mesmo dia, so que dia 7 nasceu tambem o meu querido e inesquecível sobrinho Antoninho; tinha diferença de horas; mas o meu Rubens faleceu quando tinha 9 meses, faleceu com desidratação; naquele tempo não era fácil o tratamento, morreu em dois dias, vomitou e não engoliu mais nada, nao segurava nem uma gota de leite materno, e uma desenteria que em pouco tempo o perdi. Fiquei quase louca de tanta tristeza, mas pouco a pouco fui me conformando e assim tentei ter outro filho. Logo depois veio, em vez de menino, uma menina que lhe puz o nome de Yvone, e assim fiquei com um casal. Depois compramos uma casa na rua Herval No. 27, mas antes disso aconteceu que meu José adoeceu. Era muito tempo que se queixava de dor no estomago, mas ja eram 7 anos que se queixava; ele nunca procurava um médico ; mas cada dia que se passava, piorava. Um dia eu disse vai ao médico, pois eu não sabia que comida fazer, tudo lhe fazia mal, vomitava sem comer nada. Ai resolveu ir ao médico, e foi consultar com um médico famoso naquele tempo, Dr. Benedito Montenegro. O médico logo que o viu disse sem consultá-lo - voce esta com uma ulcera, e dito e feito, tinha ulcera no duodeno no estomago. O José ficou tão amendrotado que não queria se operar; mas a ulcera estava quase perfurada, e assim muito triste, deu entrada no hospital Sta. Catarina no dia 30 de novembro de 1930. Imaginem como eu fiquei; muito triste, nervosa, tremia não sei como aguentei; eu sempre adorei meu marido, como tinha medo de perde-lo ! Como eu chorava ! Mas graças A Deus, no dia primeiro de dezembro de 1930 foi operado e dia 8 do mesmo mes voltou para casa e nunca mais teve problema de estomago.
Podia comer o que fosse não lhe fazia mal. Eu sosseguei porque tudo o que eu lhe dava de comer fazia mal, e depois da operação comia de tudo e durou mais 42 anos; e assim continuamos a vida.
Depois de alguns meses, para a nossa casa que compramos no Belem na rua Herval. E ali fomos muito felizes, moravamos na nossa casa ! Aos domingos, eu com o José tratavamos do jardim, plantavamos tantas flores, roseiras, cravos, boca de leão, violetas, amor perfeito, com tudo brotava!
Como era linda nossa vida ! Mas meu marido naquele tempo era empregado, trabalhava na cidade num salão chic, ganhava boas gorgetas, e um pequeno ordenado; mas eu ajudando com o meu trabalho que era rendoso, dava muito bem para vivermos felizes; nunca faltou nada , graças a Deus.
Morava na nossa casa propria, o Nelson então com 7 anos, ia na escola e sempre foi muito inteligente com e anos ja cursava o terceiro ano primário, a Yvone tinha 4 e iamos indo muito bem . Mas como sempre tem sofrimento na vida, vou contar o que aconteceu. Era o mes de dezembro, o mes mais bonito do ano; eramos tão felizes, os filhos ja estavam mais ou menos crescidos, nao estavam dando muito trabalho. O Nelson ia a escola e a Yvone, com 4 anos, tambem nao dava muito trabalho, assim sendo eu podia ajudar bastante a trabalhar de pespontadeira. Mas aconteceu que eu fiquei grávida. Eu tenho esso grande pecado para confessar. Nao querendo mais filhos, o José conhecia uma parteira profissional, porque a empregada dessa tal parteira ia sempre no salão de barbeiro, buscar as toalhas para lavar. Então essa tal indicou ao meu marido, que me levasse lá, que era uma especie de maternidade; essa parteira fazia esse serviço com a maior facilidade. Como era de poucos dias, parecia ser um atrazo de dias; sem consultar a ninguem, nem a minha querida mãe, o José me levou,era dia 6 de dezembro. Eu fui, mas tão amedrontada que ninguem imagina, tremia de medo. La chegando encontramos com mais 20 mulheres, e todas diziam que não era para ter medo, que era uma coisa muito simples. Algumas falavam - eu fiz oito vezes , outra eu fiz 10 e assim por diante, todas abortavam com a maior facilidade. Mas quando chegou minha vez, que fui para a mesa fazer a curetagem; não imagina que sofrimento, parecia que ia morrer. Fui para casa muito triste, cheia de remorsos. Com me tinha arrependido, comecei a pedir perdão a Deus, a ler livros sacros. A parteira disse que era de dias apenas, mas o feto ja era formado, era um menino, ningue pode imaginar o que aconteceu depois. Nesse dia apesar de estar triste, e cheia de remorso, ao anoitecer comecei a me sentir tão mal com tanto frio, que não havia cobertores que me pudessem aquecer; batia os dentes uma febre de 40 graus. Ai mandamos chamar a tal parteira e disse que não era nada; mandou-me tomar um laxante, mas a febre o temor de frio continuavam. Eu não tinha coragem de contar para a minha mãe, que ela nunca me perdoaria; mas passaram-se mais de dois dias e eia piorando cada vez mais, até que fui obrigada a chamar minha mãe. Contamos o que tinhamos feito, contrariando a minha mãe, pois ela mãe, pois ela não queria que fizessemos isso. O José, achando-se culpado, chorava como uma criança e pedia-lhe perdão. E assim eu não pude mais sair da cama, e a minha pobre mãe teve que ficar em cada e cuidar das crianças que eram o Nelson com 8 anos e a Yvone com 5. Chamamos o médico, e me consultou e me mandou tomar tantos remédios. Passaram-se uns dias e a febre cada vez mais alta e não melhorava nada. Chamamos outro médico, e assim por diante trocava de remédios , e não melhorava a mesma coisa; ia cada vez pior. Todos os dias febre alta de 40, as vezes 39, mas nunca mais baixa. Depois não só a febre, começaram umas dores no pulmã. Chamamos outro médico, e disse que estava com pneumonia, e mandou tomar outras qualidades de remédios; passaram-se mais duas semanas e a febre não passava e piorava com mais dores. Chamamos outro médico e consultou-me, e disse que tinha pleurite de água; e assim fez diversas punsões tirando-me a água do pulmão. Mas a febre não passava, e fiquei tres meses na cama piorando e os médicos não advinhavam o que eu tinha. De dezembro até março, fiquei em casa, e minha mãe ficou comigo tomando conta da casa e dos netos. Eu tinha naquele tempo uma empregada chamada Romaria que muito nos ajudou. Depois de tantos dias, semanas e meses, vendo que não melhorava souberam de um famoso médico chamado Dr. Luiz do Rego; telefonaram para o hospital Instituto Paulista, era onde ele trabalhava. Então ele disse que não fazia consulta em casa que para me levar ao hospital Instituto Paulista. E assim fizeram; e todas minhas irmãs me vestiram eu não tinha mais força nem para falar, e me puzeram no carro do Bernardino e junto com a minha querida irmã Elisa, que me acompanhou toda a viagem sempre chorando, que dava pena. Quando chegamos ao hospital, alugamos um quarto e depois ficamos esperando o tal médico Luiz do Rego.
Meu marido não foi mais trabalhar, ficou comigo até eu ter alta. Quando chegou o médico, o meu marido todo aflito perguntou se meu caso era grave. O médico respondeu que não podia dizer nada que só Deus podia resolver. Eu fui antes consultada por mais de 10 médico, e todos tiraram o corpo fora; era uma grande infecção, que naquele tempo não tinha cura, quase todos morriam. Mas como dizem que bicho ruim não morre, eu ainda estou aqui com os meus 80 anos. Mas deixando de brincadeira, o casso não foi fácil, foi bem complicado. Entrei no hospital em fevereiro, no qual fui examinada pelo Dr. Luiz do Rego, e dai por diante, sabe Deus quanto sofri ! Tiram-me diversas radiografia, fizeram muitos exames, e depois de alguns dias, fui operada, eu estava com uma enorme infecção na pleura, tinha-se formado um foco de pus, porisso eu escarrava pus. De tanto médicos, nenhum acertou,foi mesmo um milagre ter chamado o Dr. Rego. Bem, depois da operação fiquei no hospital mais ou menos 15 dias, mas sempre com febre alta, com tosse de não suportar, de nada havia adiantado a operação. Eu com saudades de meus filhos que ficaram com os tios; o Nelson, coitadinho com o Atilio e a Yvone com o Bernardino. Aos domingos eles traziam os meus filhos para eru ver; mas quando tinham que ir embora, choravam que dava pena ! O Nelson era um tanto levado e o Atilio, que não era sopa, o coitadinho do Nelson sofreu um bocado. A Yvone tambem sofreu e apesar de ser teimosa tinha o custume de urinar na cama, e ja estava com 4 anos e meio. Mas como o Bernardino a fazia tremer, pois com ele não se brincava, de medo de apanhar, lhe tirou o costume de urinar na cama. E asssim esta minha doença deu tanta dor de cabeça. Depois de 15 dias eu sempre pedia para o medico me dar alta, mas ele dizia que enquanto nao passasse a febre, eu não podia sair.
Passaram-se mais uns dias, e como a febre continuava me deram alta; mas com uma condição , que deveria mudar de clima, ou seja, um lugar mais saudável para os pulmões como S. Roque, Atibaia, ou Bragança . E assim sai do hospital, porem meu marido foi procurar aonde eu poderia ficar. Mas chegando em Bragança nem sei quanto queriam por um quarto, e alem disso tinha que tratar um médico ou uma boa enfermeira para me fazer os curativos todos os dias. Ficaria muita despeza, que n’aquele tempo não podiamos. E assim resolvemos e fui ficar na casa de minha irmã Felicia. Mas não podendo ficar comigo nenhum dos filhos. O Nelson que estava la, desde que eu fui para o hospital( ele não gostava de estar com eles ) quando soube que eu iria la, ficou contente, mas depois soube que ele teria de ir embora. E do mesmo modo ficaria sem a mãe. Coitadinhos de meus filhos, quanto sofreram ! Eu fiquei na casa desse cunhado, mas não posso me queixar, era ele, o Otilio que me fazia os curativos todos os dias, saia um puz tão mal cheiroso que não se podia aguentar, cheirava tão mal que ninguem podia acreditar. E assim passaram-se muitos dias e a febre continuava, sempre a 40 graus e 39. De quinze em quinze dias o Otilio me levava ao médico, e o médico admirava que a febre não cessava. Ai ele examinou-me com toda atenção e falou para o Otilio que devia me internar outra vez. Que devia fazer outra operação. Disse o médico que havia se formado outro foco de puz num lugar da pleura bem no fundo, que seria muito difícil escapar, que só um milagre. E assim fui operada outra vez. Ninguem pode acreditar como sofri na segunda operação. Ai deixaram o corta da operação todo aberto, com o dreno para sair o puz. Fiquei mais 15 dias no hospital, e depois mesmo com febre, voltei para a casa de minha irmã Felicia. Depois de algumas semanas fui melhorando, mas sempre saindo puz e o Otilio fazendo curativos. Até que Graças a Deus a febre foi embora. Ai fomos buscar os nossos filhos, que ficaram tão alegres de voltarem com a familia, e pouco a pouco fui me recuperando. E todo o tempo passaram-se 6 meses de penitencia. Antes tivesse tido outro filho. Como me arrependi ! Ainda tenho a consciencia pesada. Ja me confesei diversas vezes, mas este pecado eu tenho e peço a Deus que me perdoe.
Depois disso tudo foi normalizando. Fui-me restabelecendo e comocei a trabalhar de novo, mas me sentia tão fraca que eu pensava que nunca mais voltaria a ser o que era. Mas pouco a pouco cheguei a voltar o que era. Nessa ocasião o José, meu querido marido, tinha largado de trabalhar para ficar comigo, tratou de mim com todo o carinho, é verdade que ficamos endividados, mas depois nós dois trabalhando pagamos as dividas e começamos a vida nova. Ele foi trabalhar e eu tambem ,e graças a Deus voltou tudo ao normal. Depois que tudo melhorou, o José veio com uma novidade que vendiam um salão de barbeiro na Avenida Rangel Pestana. Nós não tinhamos dinheiro, mas meu tio José De Meo se ofereceu para empresta-lo. Naquele tempo era nove contos de réis que seria hoje mais de nove mil cruzeiros, creio que muito mais. Um salão com seis cadeiras, todo espelhado, afreguezado, com uma distinta clientela. Eu não queria, mas meu tio insistiu, que acabamos comprando. O salão era bem montado, mas o incoveniente e que nos fundos do salão era moradia.
Nós que estavamos n’uma casa da rua Herval, no Belem, a casa era bonita, cheia de plantas, viveiros de passarinhos, era uma beleza ! Que lindo quintal ! E assim tive que mudar para o fundo do salão, sem ter nem frente nem fundo. Como chorei. Como custou me acostumar. Parecia uma condenada, mas com o tempo fui me acostumando e la fiquei 9 anos. La mesmo no anod de 1937 fiquei grávida, depois de 12 anos nasceu o meu querido Djalma, Deus que o abençoe. Esse filho foi tão bonzinho e ainda é o mais carinhoso de todos. Bendito seja Deus que mandou esse ‘bello’ filho. E mesmo morando no salão, deu jeito de criá-lo. Depois de 3 anos que o Djalma nasceu, tivemos que desocupar a casa. Os donos se desquitaram, e como a propriedade era da mulher ela mandou intimação para desocupar a casa. Imaginem nosso desespero ! Nós pagavamos 300, salão e moradia. Como fazer para encontrar um lugar para montar um salão ? Mas como Deus e tão bom, tudo foi resolvido. Meu marido conversando com um dos freguezes, queixava-se que ira fechar o salão. Esse freguez gostava muito de nós, ele fazia ponto de chauffeur em frente da Igreja, então disse ao José: Deixa isso comigo, que eu conheço o dono da farmácia que estava estabelecido na esquina, pertinho da Igreja. Eu vou falar com ele, talvez ele possa ceder-lhe uma porta e assim voce poderá mudar-se para lá. Era quese um frente do salão onde estavamos, pegado a igreja do Braz. E assim com a ajuda de Deus , deu tudo certo. Encontramos tambem a casa para morar na rua Martim Buchard, que não ficava longe do salão de barbeiro. Eu pensava será que vai dar certo ? No novo salão fomos pagar 400mil reis, e na moradia 380 mil reis. Eu pensava que não iria dar para viver, porque achava que era muito aluguel. Nós pagávamos só 300 mil reis salão e moradia e agora quase 800 . Tambem pensei que o ponto em estávamos era melhor. Mas graças a Deus enganei-me. Melhorou 100 por cento. Com tudo que o aluguel era o dobro, a freguezia tambem era o dobro. E assim depois de pouco tempo deixei de trabalhar de pespontadeira, graças a Deus. Com eu estava cansada de trabalhar desse ofício. Eu nunca gostei de ser pespontadeira, mas para ajudar a montar a casa, e dar conforto aos meus filhos, trabalhei 22 anos depois de casada. Mas assim mesmo não foi de minha vontade que deixei... Foi meu querido Jose, que sem eu saber, trouxe um homem para retirar a máquina de pesponto, pois a tinha vendido, e eu sem a máquina não podia mais trabalhar. Mas graças a Deus, desde que mudou de lugar o salão de barbeiro, a vida mudou para mil maravilhas. O dinheiro do salão dava para tudo. Educamos nossos filhos e nunca faltou nada. Meus filhos nunca precisaram trabalhar. Enquanto solteiros só estudavam. E pela vontade de Deus, formei meus filhos. O Nelson, economista; a Yvone, professora de piano e o Djalma , dentista. Fizemos o maior sacrifício, mas graças a Deus, conseguimos o nosso desejo. Comprei para a Yvone um lindo piano alemão, para o Djalma um belo equipo odontológico, com raio-x e para o Nelson ajudei o quando pude. O Nelson acabou de se formar e logo pensou em casar. Felizmente teve sorte de enamorar-se de uma linda joven chamada Eunice. Casaram-se e tiveram 2 filhos. O primeiro José Pedro, apelidado - Nenéco e o segundo José Rubens. Graças a Deus os 2 filhos são muito bons, trabalhadores. Os dois formados, um é economista e o outro administrador de empresas. Ganham bem e são bons filhos.
O José Pedro já é casado e tem duas filhinhas. Uma chama-se Flávia e a outra Juliana. O outro é ainda solteiro e por enquanto não pensa em casar-se. Ela acha a vida de solteiro tão boa. Tem seu carro e anda bem vestido, tem tudo o que quer. Tem um bom emprego. Ele disse que quando tiver tudo, casa própria bem mobiliada, ai ele vai pensar. A Yvone tambem tem 3 filhos. O Paulo Sergio, o Cezar Aurelio e uma linda moça chamada Marcia. Os dois rapazes ja são formados, engenheiros nutricionistas. Já estão empregados e ganham muito bem. A Marcia tambem está no terceiro colegial e pretende formar-se. Ainda não sei a profissão. A minha filha Yvone casou-se com um bom moço naquele tempo. Depois de casado, alem de ter uma boa profissão, resolveu estudar odontologia, e quando fez o vestibular entrou em primeiro lugar. Assim, agora, está exercendo a profissão de dentista. Mas, com tudo isso a Yvone não teve muita sorte com esse rapaz. Por motivo de ele apaixonar-se por outra, eles estão desquitados. Com isso os tres filhos estão um pouco traumatizados, foi uma surpresa muito desagradável. Meu pobre marido não se conformava, dizia que não perdoava um homem que não perdoava um homem que deixa a família e morreu bem triste com esse caso que aconteceu para a filha e os netos, de serem abandonados pelo pai e marido.
O Djalma tambem casou-se com uma boa moça, de boa família, formada professora , tambem a Eunice era formada professora. Tenho duas noras professoras. O Djalma e a Marly tem tres lindos filhos. O primeiro chama-se Fernando; a segunda, Cinthia e a terceira, Claudia - duas meninas e um menino. Mas não por ser avó coruja, eles são mesmo bonitos, alem disso, educadíssimos e bons.
Me querem muito, me tratam com muito carinho, e eu gosto muito de ir quase todos os domingos( (na casa deles ). Mas tambem gosto de ir nas casas dos outros filhos; quem vier me buscar, eu vou.
Agora vou contar o resto que me lembro de minha vida. Depois que o Djalma se formou dentista, abriu o consultório numa casa que temos na rua Fernão Dias,332. Eu e José moravamos nessa ocasião na rua Oiapoc no. 99. No mesmo ano que o Djalma se formou, meu marido vendeu o salãode barbeiro e esse foi o maior erro de nossas vidas. Pensando que com o filho formado não precisava mais trabalhar. Mas, coitado do José, não teve culpa. É que os parentes dele diziam que o irmão, que era o José, ja tinha trabalhado muito, e precisava descansar porque os outros irmãos dele tambem tinham-se aposentado, e fizeram de tudo para que ele vendesse. Mas acontece que a aposentadoria dele era muito pouco, não dava para nada, e foi assim que ele vendeu o salão . Ai fomos morar em Pinheiros em nossa própria casa. Mas antes de morar, gastamos um bom dinheiro para reformar, e fazer na sala da frente o consultório dentário, comprar móveis para sala de espera, tapete e cortina, de modo que ficamos quase sem dinheiro. A aposentadoria era tão pouco que mal dava para viver. Depois de um tempo o Djalma loque que nomeado dentista no NPS ganhou um dinheirinho e logo ratou de casa. Tambem, tinha razão, eram já 11 anos de namoro, apesar de que quando se conheceram ela tinha 14 anos e ele 16, eram bem crianças. Mas o tempo passou e ja eram bem adultos. E assim casaram em 5 de dezembro de 1964. Graças a Deus se dão bem e são muito felizes e tiveram 3 filhos. Eu com o José ficamos sozinhos, mas o consultório ainda ficou, e ele continuava trabalhando em casa, não tinha se afastado de tudo, ainda estava com meu querido filho.
Mas, um dia, veio com a novidade que iria mudar o consultório para outro lugar. Não imaginem como ficamos tristes eu e José. Vendo desmontar o consultório e deixar-nos sozinhos, com uma sala vazia. Como chorei ! Como tudo era vazio ! Eu não tinha nem mais jeito de arrumar a casa, cozinhar... tudo era triste ! Que saudades sentiamos ! Mas, com a proteção divina fomos nos acostumando. Achamos que eles tambem tinham o direito de viver a vida deles, tambem para eles não foi fácil a vida. O começo é duro para todos, especialmente quem não tem ajuda de ninguem, só de Deus, que é Nosso Pai. Mas ainda tinhamos um consolo. O Nelson morava perto de nossa casa e não nos sentiamos muito sozinhos, tinhamos um filho perto com nora e netos.
O Djalma duas vezes por semana vinha almoçar em casa, só para ficar um pouco conosco, e assim matavamos as saudades.
Mas pouco a pouco, foi se distanciando. As vezes vinha almoçar e as vezes passavam-se semanas.
Assim fui me acostumando. Depois teve o primeiro filho, que é o Fernandinho, um lindo menino.
Depois tiveram mais duas meninas, uma é a Cinthia e a outra é a Claudia. Ambas bem bonitas. E asssim eles tem que cuidar da vida deles. Mas eles nunca nos abandonaram. O Djalma é o caçula, e ele se senta na obrigação de tratar dos pais.
Mas como eu já disse, o meu filho Nelson, com a família, moravam pegado a nossa casa, e por isso não me sentia tão só. Mas acontece, que depois de uns anos, resolveram vender a casa, e comprar outra melhor, em outro bairro bem distante. E assim fizeram negócio. Venderam a casa com telefone e tudo. Com isso fiquei tambem sem telefone. Nós tambem usavamos ! Quando mudaram, ninguem imagina que tristeza ! Não viamos mais ninguemdos nossos entes queridos; netos, filho e nora, ninguem ! Nem quero lembrar quantas saudades ! Como me sentia isolada ! Mas me consolva com o meu querido José, meu maridinho que estava sempre pertinho de mim. Mas ele era de pouco falar, não era de puxar conversa. As vezes, eu queria ouvi-lo falar, então perguntava da vida dele, da infancia, do tempo que ele vivia como os avós dele na Itália. Então ele começava a me contar com muitas saudades. O meu querido José não foi criado com os pais. Quando os pais do José vieram para o Brasil, os pais de minha sogra, não se conformaram, que a filha, com toda a família deixassem a Itália e toda a família. Como José era o netinho mais bonitinho, engraçadinho , e muito apegado ao avô, imploraram que deixassem pelo menos esse netinho, que era o José. E assim aconteceu. O netinho, José ficou com os avós e eles os conhecia como pai. Não conhecia a verdadeira mãe e ninguem da família. Contava que na Itália passou o melhor tempo de sua vida. Não conhecia a pobreza. Sempre teve fartura, nunca lhe faltava nada. A avó lhe dave tudo o que ele desejava. Era muito mimado. Eles tinham muitas propriedades, muitas terras, pomar de frutas, vinha , plantações de oliva, trigaos, criações de carneiros. Contava que ele ia todos os dias a cavalo olhar e vigiar os empregados na lavoura. Dizia ele que tinha saudades ! Mas como a felicidade dura pouco, quando José tinha 12 anos, a avó ficou doente e depois de um tempo faleceu. Ai ficaram só o avô e o neto, o meu José. O avô tinha muitos filhos, mas eram todos casados. Só tinha um solteiro, mas esse filho que se chamava Damiano, foi para a guerra em 1911. A guerra Ítalo-Turca, que a Itália tinha ganho Trípoli, lembram-se ? Mas depois, com outras guerra perdeu tudo. Mas falando o que aconteceu, depois dessar guerra, que mal terminou, começou a guerra de 1914. José, estava com o avô e já atingindo a idade de ser chamado para fazer o serviço militar. Apesar do avô ter o coração ferido de tristeza e desgosto, chamou o neto, o meu José, e disse-lhe que a guerra havia começado e que ele estava quase na idade de ser chamado para a guerra. Nessa ocasião José já tinha quase 16 anos, e o coitadinho nem conhecia ninguém de sua família aqui no Brasil. Ninguem pode imaginar com que tristeza recebeu a notícia de que teria que vir para o Brasil. Ele adorava tanto o avô. Como podia suportar essa triest separação ? Mas o avô, com lágrimas nos olhos, abraçando o netro querido, disse-lhe que estava velho, não tendo mais ninguém. O filho solteiro, o tal Damiano, ja tinha ido para a guerra outra vez . Mal havia regressado da guerra Ítalo-Turca, que há pouco havia terminado! Assim, ficando o avô sózinho com o neto, o fez comprender que, de jeito nenhum, poderia ele permanecer mais na Itália. Ele contava que ninguem podia imaginar como foi triste a separação do seu querido avô ! Ele o conhecia como verdadeiro pai, e alem disso, dizia ele que o avô era tão bonzinho! Foi assim que o avô tratou o passaporte e arrumou tudo. O levou até o navio. Encontrou uma família que vinha para a América, não para o Brasil, mas Argentina. E assim ele veio acompanahado dessa família . Contava José que o pobre avô, o acompanhou até subir no navio, e quando começou a viagem, ele se despidiu do José. Os dois estava desconsolados. Choraram, com grande tristeza nos corações. José contava que ele ficou despedindo do avôcom um lenço branco, até desaparecer sem nunca mais o ter visto! Deixando o pobre sozinho, desconsolado! A família do José., no dia da chegada ao Brasil, todos da família foram espera-lo no Porto de Santos. Mas acontece que o José não conhecia ninguem e eles tambem não o conheciam. Com isso não se encontraram. O José, coitadinho, não sabendo o que fazer, se fez acompahar de um homem no trem que vinha para S. Paulo. Mas, quando a família vendo que não o encontravam, foram ao navio falar com o capitão e daí deram a informação de que ele tinha ido com esse tal homem, tomar o trem. E ai foram e o encontrarm. Contava o José que ele não conhecia ninguem, todos eram estranhos para ele . Quando chegou em S. Paulo, foram para casa almoçar e conhecer o resto da família . E foi assim que começou a carregar sua cruz no Brasil. A pobre mãe tambem carregava a sua; o marido bebia e não trabalhava. Antes era um bom homem; mas contava minha sogra que não sabia o que havia passado, e ele começou a beber e não trabalhava mais. E assim a minha sogra, mãe do José, teve que manter a família, trabalhando noite e dia para comprar o necessário e para dar de comer aos filhos. Eram todos 6 com o José. Quando chegou aqui no Brasil, S. Paulo, os irmãos mais velhos eram o Titillo, a Rosina, que era casada, o Antonico, o Chichillo e a Ermelinda. A outra que era a mais velha chamava Carolina. E foi assim que o José precisou trabalhar para ajudar a família. Os irmãos eram todos solteiros. Ermelinda e Chichillo eram menores. A irmã chamada Rosina era casada, apesar de ser a segunda filha. Ela se casou com 16 anos. A Carolina era a primeira filha. Quando o José chegou da Itália, ela estava noiva do Chiapetta, e com ele se casou. Mas aconteceu que infelizmente, tiveram um grande desgosto. Ao nascer seu primeiro filho,de nome José Chiapetta, a irmã do José faleceu de parto. Deixou o marido e o filho com 9 dias apenas. Imaginem a dor e o desgosto da pobre família do José. A mãe dele quase enloqueceu. Perdeu a filha com 20 anos, cheia de vida. Era a alegria da casa. Dizia meu marido que ela o queria tanto. Foi a que mais o recebeu como irmão. Ele tambem sentiu muito a sua morte. Fazia pouco tempo que havia chegado da Itália e ainda tinha tantas saudades do avô e teve esse desgosto. Contava o José que ele não sabia como ajudar a família. Como já contei, o pai não trabalhava e tinha irmãozinhos menores. Então procurou serviço e começou a trabalhar de aprendiz de carpinteiro, com o sogro da irmã Rosina. Dizia ele que sofreu muito ! O sogro da irmã era um homem rude, cruel e não tinha pena de ninguem. O fazia trabalhar tanto que ninguem pode imaginar o quanto sofreu. Saia de casa às 5 horas da manhã. Ia do Braz até o bairro do Paraiso a pé. Ai encontrava com operários que trabalhavam por conta do tal Carpinella que era o sogro da Rosina. O José contava que lhe davam para carregar nas costas, material de construção grossos e pesado, vigas de madeira, que os ombros dele ficavam todo esfolados, de sair sangue, só para ganhar um mil reis por dia; e assim ele ajudava a comprar algumas coisa, dava para comprar pão, pois com um mil reis, comprava 4 quilos de pão, valia a pena esfolar os ombros para ajudar a matar a fome. E foi isso que ele cncontru no Brasil. E ele me contava, que muito tempo custou para se acostumar, como era diferente a vida na Italia ! O avô chegou a mandar diversas cartas, querendo saber se o neto estava bem. Mas o pobre velho, de tantas saudades, pouco tempo durou. Adoeceu e logo faleceu. E esta foi a triste notícia. José ficou tão amargurado para o resto da vida. E sempre falava do avô. Depois de uns tempos, que trabalhava de ajudante de carpinteiro, ele achava que alem de ganhar uma miseria, estavam aproveitando demis, e assim ele precisou procurar um serviço que ganhasse um pouco mais. Foi assim que ele aprendeu o ofício de barbeiro. Embora era um ofício pouco rendoso, ele ajudava muita a família, mesmo com um ordenado baixo. Mas ele era muito simpático, tão bonzinho e agradável que lhe davam boa gorjeta.
A freguezia gostava muito dele. Ele contava que a família não via a hora que ele chegasse em casa para limpar seus bolsos das gorjetas que ganhava. Depois de alguns anos, ele era o um bom oficial de barbeiro. Trabalhava em um dos melhores salão de barbeiro da cidade. Era um belo moço alinhado, educaddo e era querido por todos. E foi assim que eu o conheci. Gostei dele e ele de mim e fomos sempre felizes, até que a morte nos separou. Bem, eu estava contando que quando o Nelson se mudou, de perto de nós, eu com o José ficamos sozinhos na casa da rua Fernão Dias, 332. O Djalma e o Nelson moram perto, no Planalto Paulista, mas o Djalma sempre vinha com a família todos os domingos. Alguns domingos, íamos la. Ele nos vinha buscar para passar o domingo com eles. As vezes o Nelson, as vezes a Yvone e assim por diante passamos a vida. Tivemos tambem muito desgosto com o desquite da Yvone com o Marcello, depois de 27 anos de casados, pai de tres filhos, bonitos e inteligentes. Paulo Sergio o primeiro,Cezar Aurelio, o segundo, e a terceira uma linda menina de nome Márcia. Este homem parecia ter loucura pela Márcia. Não podiamos imaginar que tivesse essa coragem de deixar a família por outra mulher. Meu José não se conformava até a morte do que o Marcello fez. Sempre dizia que um homem que abandona a família é um perverso, sem coração. Ele achava que a família é sagrada e assim meu marido morreu mal com o genro. Mas, graças a Deus, os filhos da Yvone, minha filha, são bons filhos e continuaram a estudar. A Yvone trabalha mais que nunca e, graças a Deus, está vencendo. Já tem os dois filhos engenheiro, e os dois estão bem colocados. Paulo Sérgio trabalha como engenheiro da fábrica em Jundiaí, na Flexman e o Cezar tambem de engenheiro na Fábrica Kibon. Estão ganhando bem e são muito queridos e bem relacionados. A Márcia está uma moça e cursando o 3o. Clássico no Objetivo. Agora nos dia 22 de setembro de 1978, Paulo Sérgio, primeiro filho da Yvone, vai se casar. Pedimo ao Deus Todo Poderoso, que os proteja e que sejam muito felizes. Cezar, depois do casamento do irmão,vai viajar para os Estados Unidos. Vai a serviço da firma. Que Deus o proteja e faça uma boa viagem. O Nelson também tem dois filhos. O primeiro é casado e tem duas lindas meninas. A primeira se chama Flávia e a outra Juliana. Graças a Deus são muito felizes. O outro filho do Nelson também é bom rapaz, mas por enquanto não pensa em casar. Quer primeiro se fazer. Disse que enquanto não tiver casa própria e todo o conforto que precisa, ele não casa. Mas os dois filhos do Nelson estão bem empregados. Estão ganhando bem. O meu filho Djalma também está muito bem, graças a Deus. Também tem um bom emprego Federal, trabalha como dentista no INPS e está ganhando muito bem. Além disso, tem um consultório dentário. Logo depois que o pai faleceu, ele diz que a ajuda do espírito do pai o ajudou e comprou uma linda casa. Graças a Deus eles também são felizes. Têm uma boa família. Três lindos filhos e uma boa esposa. Eu, com meu querido marido, não fizemos fortuna, embora tenhamos trabalhado tanto que ninguém imagina ! Mas, graças a Deus, o que almejamos conseguimos. Nossos filhos tiveram mais estudos que nós e porisso podem dar mais conforto a suas famílias. Nós fizemos todo o que era possível, mas com muito sacrifício. Ficamos com apenas uma casa, justamente essa da rua Fernão Dias, 332. O meu querido marido era um homem muito bom, de coração bom, nunca fez mal a ninguém. Confiava em todos e por ser assim, perdeu sempre nos negócios. Teve muito sorte com a família, mas em negócios nunca deu certo em nada. Quando casamos estávamos com muitas dívidas. Os móveis, as roupas do casamento, tudo para pagar. Também não era possível juntar em 6 meses de tempo, o prazo que meu pai deu para se casar comigo. Ele, sendo de família pobre, precisava ajudar a família, ganhava pouco e não podia fazer milagres. Foi obrigado a comprar tudo fiado. Os móveis eram bonitos, mas não haviam sido pagos. Eu sabia, ele me contou, mas meu pai não sabia. Mas, depois que nos casamos, eu com boa vontade de trabalhar e ajudar, em pouco tempo pagamos tudo e ficamos sem dívidas. Assim pensamos em comprar alguma propriedade e a primeira que compramos foi um terreno e 8 metros de frente por 40 de fundo, na rua Candido Valle. Era uma travessa da Avenida Celso Garcia. Compramos a prestação, mas tambem logo pagamos. E assim tinhamos começado muito bem. Depois vendemos o terreno e compramos uma casa, no belenzinho, na rua Herval, 27. Mas a casa era do pai do Bernardino e assim ele ficou com o terreno e demos o resto e ficamos com a casa. Fomos os primeiros da família a ter casa própria. Quanta era nossa alegria de possuir uma casa ! Mas as alegrias duram pouco. Logo depois de ter comprado a casa, o meu marido, que sofria de úlcera no estomago, piorou, e foi obrigado a se operar. Com isso fizemos um pouco de dívidas. Gastamos muito dinheiro no hospital e a operação. Foi operado pelo Dr. Benedito Montenegro e felizmente tudo voltou ao normal. Começamos depois de um mes a trabalhar e pagamos as dívidas. Um domingo o José veio com uma novidade. Ele havia ido servir um freguez que era muito rico. Tinha loteado uma grande gleba de terra, talvez seria fosse uma fazenda naqueles tempos, de nome Cidade Jardim. Assim o José quiz que eu fosse com ele para comprar um lote. A tarde do mesmo domingo nos fomos. Eu fiquei entusiamada. O dono do terreno tinha feito tantas benfeitorias nos terrenos que parecia mesmo um jardim. E nos acabamos comprando um lote. Demos uma boa entrada e o resto eram prestações. Começamos a pagar as prestações. Tudo ia muito bem, ja tinhamos pago mais da metade do valor do terreno. Mas como a sorte não era de progredir com fortunas, aconteceu que eu fiquei doente, que ja contei, e com isso não dava para pagar as prestações. Tinhamos gasto muito dinheiro com minha doença, tinhamos a dívida da casa, foi um parente que nos emprestou, e com isso não pudemos pagar mais as prestações. Ficamos atrazados nos pagamentos prestações e a escritura rezava que se atrazasse 3 meses, perdia o direito ao terreno. E aconteceu que com isso perdemos o terreno. Seriamos ricos, pois esse terreno fica em frente ao Joquei Clube. Depois disso compramos o salão de barbeiro, também com dinheiro emprestado. Foi do tio José de Meo, pagando juros, é lógico. Quando acabamos de pagar as dívidas com o tio José, pensamos em comprar um apartemento em Santos. Naqueles tempos, tinhamos muita amizade com tia Cecília e tio Domingo e quase todos os domingos íamos para Santos. José entusiamou-se por um prédio que estava em construção que tem o nome de Edifício Lord . Vendiam com um pequena entrada e em suaves prestações. Achamos que era ótimo negócio e acabamos comprando um apartamento no 10 andar. O prospecto era uma beleza. A planta mostrava como iria ficar. Só vendo que encanto que era. Fizemos a escritura de compromisso, e ficamos com um apartemento no décimo andar e assim começamos a pagar. Fomos sempre corretos nos pagamentos. Mas aconteceu que o edifício Lord foi só iniciado e ficou no terceiro andar e aí parou. Nós continuamos pagando as prestações . De vez enquando íamos a Santos para ver se estavam trabalhando, mas nem por imaginação. O prédio ficou na terceira laje por 14 anos. E nós sempre pagando até acabar tudo. Quando acabamos de pagar, disserem que iam empastilhar e depois de pagar tudo, acabamos pagando tambem mais as pastilhas do tal prédio, que nunca acabaram! Foi assim que depois de 14 anos, os outros que tambem tinham comprado, resolveram se unir, e por advogados para resolver o caso. Assim, alem de acabar de pagar todo o apartamento, tivemos que gastar mais dinheiro para pagar os advogados. Naquela época José já tinha vendido o salão e foi muito apertado ajudar a por a causa em questão. Afinal, depois de tantas assembleias foi resolvido o caso. Todos os prestamistas do condomínio, alem de pagarem o que tinham combinado, tiveram um reajuste. Naquele tempo era para darem mais dois mil cruzeiros em parcelas de 500 cruzeiros cada. Isso para nós, que já tinhamos vendido o salão de barbeiro, representava muito dinheiro. José já estava aposentado e a aposentadoria era bem pouca e não dava para pagar o reajuste e assim perdemos tudo . Naquele tempo o dinheiro tinha mais valor, e nos perdemos tudo que tinhamos pago. Eram 350 contos o que perdemos, mas nesse ano de 1960 significou muito. Por isso, o sonho do querido José, que tanto gostava de morar em Santos, não se realizou. Em negócios nós nunca tivemos sorte. Uma vez compramos um terreno no bairro da Aclimação. Naquele tempo que compramos, o prefeito era o Prestes Maia. Ela havia projetado um grande benefício no Jardim da Aclimação, de maneira que José pensou em fazer um bom negócio.
O terreno media 12 de frente por 40 de fundo. Mas, o tal projeto gorou, não fizeram nada. Ficamos mais de 15 anos esperando que o tal terreno adquirisse mais valor, mas todos esses anos não fizeram nada. Esse terreno era pegado nos fundos do Jardim da Aclimação e durante o tempo que foi nosso não progrediu nada. Um dia apareceu um freguez no salão onde José se encontrava e fez uma proposta para comprar o terreno. José estava desanimando com o terreno e achou um bom negócio.
Aceitou a oferta. Vendou por 400 contos. Para ver como é o destino, durante 18 anos que a propriedade era nossa, nada progredia, e depois que vendemos, ninguém pode imaginar como valorizou. Depois de 6 meses ninguém podia acreditar como havia melhorado ! Asfaltaram tudo, iluminaram, ajardinaram e puseram onibus. Nem se pode acreditar quanta melhoria fizeram ! Um domingo fomos ver nosso terreno e como fiquei triste ! Chorei de desgosto. Imaginem se tivesse agora ! Como gostaria de poder ajudar um pouco os meus filhos a quem nada pude dar senão a profissão para ganhar o pão de cada dia. Mas Deus que os abençoe e que progridam. Foi assim que nunca tivemos sorte em negócios, mas era nosso destino, ser o que fomos. Não fomos ricos, mas graças a Deus nunca faltou o necessário. O importante foi que tivemos sempre felicidade, com muita saúde, muita paz e harmonia. Sempre concordamos um com o outro e vivemos 54 anos juntos. Chegamos a fazer bodas de ouro com muita festa e alegria. Quando fizemos 50 anos de casado pensamos em mandar celebrar uma missa de ação de graças, mas os meus queridos filhos e sobrinhos, acharam que era uma data muito significativa e merecia ser festejada. Assim nos surpreederam. Esse dia que era 23 de abril caiu num domingo. Eu com José nada sabiamos. Eles tinham planejado e fomos almoçar como de costume, em casa de Djalma. Eles não contaram nada. A Marly e o Djalma só nos disseram que iriam celebrar uma missa, às 6 horas da tarde em ação de graças. A Marly qui me prender os cabelos e me ajudou arrumar -me bem, quiz que eu puzesse o vestido melhor que eu tinha; e as 6 horas fomos para a Igreja Nossa Senhora de Lurdes. Quando chegamos, ficamos surpresos com a Igreja repleta de gente, quase todos os parentes mais chegados. Mas assim mesmo pensamos que era a ceremonia, a missa e os cumprimentos. A missa foi celebrada com tanto entusiasmos, com tantas palavras bonitas que opadre Angelo falava; parecia conhecer toda a nossa vida e a felicidade da nossa vida conjugal. Eu com o José choramos de alegria. Quando terminou a missa, fomos abraçados por todos os filhos e sobrinhos e os demais parentes. Pensamos que tinha terminado tudo, e que iriamos para casa. Mas ai tivemos uma surpreza inesquecive. O Djalma me pegou pelo braço e disse-me. Mamãe, a senhora conhece todas as comodidades desta Igreja ? Eu lhe disse que não. “Então a senhora vai conhecer agora” e levantando-me pelo braço ia-me indicando e apontando dizia” Aqui é uma escola para criança pobres” e, “ Aqui e onde os meninos aprendem trabalhos manuais, como crochê, bordados, etc.” e por fim nos levou ao salão de festas. Não imaginem como ficamos surpreendidos eu com o meu querido José. Ali estavam todos os meus queridos parentes, os filhos, netos, sobrinhos. Uma grande mesa, repleta de doces e salgadinhos, tudo feito pelas mãos de meus filhos e sobrinhos. Um grande bolo enfeitado , champanhe, refrigerantes. Não faltou nada . Tinha de tudo. Foi muito melhor que um casamento. Com isso nós vimos o quanto fomos queridos pelos nossos filhos e sobrinhos. Até hoje eu abençou a todos os que colaboraram para essa homenagem. Até o padre Angelo nos abençoou e nos deu um presente. Um terço de madeira de Jacarandá. E assim foi celebrada essa feliz data 23 de abri de 1922, que foi o dia de nossa união. Depois que fizemos as bodas de ouro, noa sei até hoje o que houve comigo. Comecei a me sentir mal; entrou em mim uma tristeza; um mal estar; minha boca amarga; sem sono; sem vontade de comer; sem vontade de nada. Meu filho Djalma me levou ao médico que não achou nada, mas receitou uns remédios. Mas nada resolveu. Cada dia piorava mais; menos apetite, menos disposição; um desanimo inacreditável. Passei alguns meses com o tal tratamento desse médico, mas vendo que piorava dia a dia, Djalma resolveu me levar em outro especialista. Tambem o tal especialista nada encontrou de doença, mas me mandou fazer exame de sangue e urina; tirar radiografia dos pulmôes e estomago. Afinal tudo o que podia ser feito. Fizemos tudo o que ele mandou e entregamos os exames. Tambem nada encontrou. Mas eu piorava cada vez; dia por dia me sentia pior. Afinal nenhum médico acertou minha doença. Trocamos de médico. Mais de 11 médicos. Fui até a um psiquiatra, mas tambem nada de melhorar. Não me sentia bem em nenhum lugar. O Nelson e a Eunice me levaram passar uns dias em Santos para me distrair, mas eu não sentia nenhuma alegria; não me apetecia nada e a comida não tinha sabor. Para eu comer era o maior sacrifício. Era pior que tomar um purgante de óleo de ricino. Nao podia sentir cheiro de comida nenhuma, que me dava ancia de vomito. Depois de passar dois anos nesse estado, sempre trocando de médico e remédios e nunca melhorando, não comendo nada; não durmindo quase nada, fiquei magra. Perdi vinte quilos. Meu pobre marido não sabia o que fazer, coitado ! Me levava para lá e para cá e me fazia todas as vontades, mas nada me agradava. Ninguem pode acreditar o que eu sentia. Bem, para encurtar esse caso que eu tive e vendo que não havia médico que acertasse ouvimos os palpites de uma vizinha que vendo-me sofrer tanto disse ao meu marido para me levar em um centro espírita que ela conhecia. Disse ela que um parente seu estava doente e ficou quase um ano sem dormir e que nenhum médico lhe curou a insonia e que só ficou curado depois que foi no tal espiritista. Assim, depois de sofre tanto tempo o José me levou nessa casa de sessão espírita. Eu tremia de medo, parecia estar fazendo o maior pecado do mundo, pois nossa família nunca acreditou em espiritism e eu parecia fazer o que a igreja condena. Chegando lá, a mulher que diziam que fazia milagres, me consultou e disse que eu tinha 9 espíritos encostados. Disse que 8 eram fáceis de desencostar, mas um era um padre e que seria muito difícil de sair do encosto. E assim começamos a ir todas as quintas-feiras. Ninguem imagina que sacrifício! Levantavamos as 4 horas da madrugada, tomavamos um carro e iamos até o chamado Jardim de Abril, que fica para os lados de Osasco. Chegavamos as 7 da manhã e mesmo sendo tão cedo assim, encontravamos tanta gente que nem dava para acreditar. Era um empurra, empurra. E foi a primeira vez na minha vida que vi aquele espetáculo. Faziam a sessão em mesa branca e ficavam em roda uma porção de gente que se diziam médiuns. Então a mulher, a dona da sessão, recebia o espírito e se estremecia toda. Ai não era mais ela, mas o espírito que falava. A casa ficava tão cheia de gente, que ela distribuia a ficha com os números de 1 a 40. Era porisso que tinhamos que chegar cedo. A sessão começava as 9 horas da manhã e terminava à uma da tarde. Quando as vezes saiamos com chuva ou as vezes com o sol quente, era difícil tomar táxi, esperavamos horas, então chegamos tarde. Sempre ficavamos sem almoçar. Coitadinho do meu marido, quanto sofreu por eu estar doente. Fomos a esse lugar, para a mulher me tirar esses 9 espíritos umas 10 vezes. Cada vez ela dizia que tinha desencostado um e assim falou depois de tantas vezes que só o padre não quis ir embora. Não queria sair de mim, se apaixonou por mim. Todo esse tempo perdido e em nada melhorei. Me queixava com ela. Então ela me disse que ia mandar celebrar uma missa para o padre ir embora. E assim foi rezada a missa, mas fiquei na mesma. O padre continuava comigo. Perdemos tanto tempo, tanto sacrifício e nada resolveu. Muitas vezes para distrairme me levavam a passear, Iamos com Djalma a Serra Negra; as vezes no sítio de meu sobrinho Renato, mas nada me alegrava. Eu tinha um desanimo, uma tristeza, uma angustia e vontade de sumir do mundo. Durou mais de dois anos. Todos tinha pena de mim e do meu querido José, que tanto sofreu por minha causa. Eu nem sei como foi embora essa angustia. Algumas pessoas me diziam que para sarar, eu devia me esforçar, ter força de vontade, mesmo não tendo vontade de trabalhar. Comecei a pegar no trabalho. Comecei a bordar na máquina, mas sabe Deus que sacrifício, como custou ! Mas, graças a Deus, pouco a pouco, fui melhorando, mas nunca mais fiquei como era. De vez em quando me volta aquela tristeza e melancolica, mas depois passa. Depois dessa temporada de minha doença, começou a de meu marido, e continuou a vida indo a médicos, até que veio o fim de meu querido companheiro. Moramos na casa da Rua Fernão Dias 16 anos. Apesar de muitas dificuldades da vida eu me sentia muito feliz, sempre ao lado de meu marido que era o meu protetor. Como eu era feliz ! Viviamos tão bem, mesmo com pouco dinheiro. Mas graças a Deus nunca faltou o necessário. Eu trabalhava sempre com bordados, ganhei sempre um dinheirinho e sempre deu para ter o suficiente. Com a pequena aposentadoria de meu marido e meu trabalho, nao pagando aluguel, deu sempre muito bem. Mas o que é bom dura pouco, e a minha felicidade acabou-se ao perder meu querido marido que Deus me deu. Como a minha vida mudou ! Que tristeza senti, e sinto ainda, a falta que me faz o meu companheiro. Uma quinta-feira ero o dia marcado para ir ao médico, foi dia 11 março de 1976. Esse dia ele me ajudou a cozinhar, eu tinha comprado milo, é o que ele gostava muito. Então esse dia para me ajudar enquanto eu limpava a casa, limpoou o miolo e pois para dar uma fervura. Quando terminei de arrumar a casa, fiquei tão contente de encontrar o miolo limpo e cozido na água e o abracei e dei-lhe um beijo, e disse, agora vou tempera-lo e vou por ao forno, sabia que ele gostava tanto. Mas quando foi na hora do almoço ele estava tão triste e sem apetite e eu disse-lhe José coma o miolo está tão gostoso, eu fiz com tanto carinho ! E ele respondeu, deixa para o jantar que eu como, ouviu Rosalina ! Mas a 3 horas veio a Yvone e nos veio buscar para ir ao médico. Ele sozinho tomou banho, se barbeou, se pos a camiza nova muito bonita ele estava tão bonito ele mesmo fechou a casa e fomos ao médico. A consulta era as 4 horas, a Yvone chegou um pouco atrazada e nesse dia, por entrar com o carro onde não devia, foi multada. Mas chegamos a tempo no médico. O médico consultou o José, e não achou ele muito bom; disse o senhor precisa se internar no hospital para se tratar. Ele, todo assustado respondeu, não, não quero e o médico insistiu, senhor José,é preciso. Então ele disse, só vou com a Rosalina, e o médico disse, sim, va com sua esposa. E assim demos entrada no hospital Santa Catarina.... A Yvone depositou uma certa quantia de dinheiro e alugamos um apartamento com duas camas e banheiro individual. Assim que chegamos os médicos mandaram ele ficar na cama. Enquanto estava se despindo, deu uns vomitos de sangue, mas tanto sangue que nem se pode imaginar de onde vinha. Encheu uma bacia e evacuava tambem sangue puro. Como me assustei ! E ele tambem. Logo vieram diversos médicos e o levaram para o quarto de recuperação. Puseram ele numa maca, e enquanto o levavam, ele implorava, Rosalina ! Rosalina, venha comigo ! Eu aflita respondia, sim José eu vou com voce. Mas infelizmente não podia, era fora do regulamento. E o pobre José ficou sozinho, e eu tambem no quarto, que tinha alugado. Imaginem como sentia triste essa noite. A vera, não me lembro, ou a Angelina e a Yvone ficaram comigo; de vez enquando iamos perguntar no quarto de recuperação como estava passando, e respondiam estava na mesma. Que noite triste ! Não deixavam entrar para ve-lo e ele implorava minha presença ! E assim passaram-se 8 dias, só podiamos visita-lo uma só pessoa; então era eu que o visitava, mas o regulamento eram só 5 minutos; mas quando ele me via, como ficava contente, me abraçava, me beijava não queria que fosse embora, como era triste essa situação. E assim passaram os 8 dias, foram os ultimos dias de sua existencia. Foi quando veio a falecer. Numa quinta-feira ele deu entrada no hospital e deixou a vida na outra quinta-feira. Morreu na véspera de São José e foi enterrado no dia de São José. As freiras do hospital quizeram fazer celebrar a missa de corpo presente. Apesar de estar tão triste nesse dia, fiquei contente em saber que o meu querido José era tão querido. O padre rezou a missa, elegiou tanto o meu José e fez um sermão tão bonito que eu fiquei surpresa em saber que ele mesmo pediu a confissão e a comunhão. Morreu com todos os sacramentos. Deus que o tenha em paz. Depois do enterrro, que foi bem acompanhado, com muitos amigos e parentes, e eu tambem fui. Ahi eu vi o quanto meu marido era estimado! Ahi eu em companhia da familia de meu filho Djalma fomos para a casa dele. Como eu não tinha dormido a noite toda e sem alimentação, deram-me um copo de leite e um sedativo e puzeram-me na cama, e só acordei às 6 horas da tarde. Acordei-me assustada e triste, não me conformando com a perda do meu querido companheiro; apesar de estar com o meu filho Djalma e familia. Me sentia tão só e foi dai em diante que começou a minha vida de tristeza e solidão. Fiquei na casa do Djalma até a missa do sétimo dia, depois resolvi não desmanchar casa.. Todos me aconselhavam que eu devia de morar sozinha, porque seria difícil de outra maneira. E assim fiz; me acompanharam em minha casa e quando cheguei, ninguem pode imagianar o que senti ? Uma grande tristeza me invadiu o coração. Nesse dia, que fiquei em minha casa, uma vizinha veio ficar comigo e me acompanhou a noite e ficou me acompanhando diversos dias, e assim passaram-se uns dias. Mas depois de uns 15 dias, que vizinha me acompanhava, me disse que não podia mais vir. E assim outra amiga me ofereceu de mandar a empregada dela, me acompanhar a noite, dormindo em casa, mas tambem pouco durou. Mas assim mesmo eu nunca dormi sozinha sempre achava alguem que passava comigo, mas assim eu não podia continuar. Eu precisava sempre de companhia, e achei queo o jeito era alugar um quarto para alguem que podia ficar morando comigo. Antes de meu marido morrer, eu conhecia uma senhora de idade que sempre me vinha visitar e sempre se queixava da pensão onde ela estava. E me contava que ela estava muito mal acomodada, e como me implorava que lhe alugasse um lugar para ela ficar. Mas meu marido nunca quiz ninguem em casa, embora a casa era grande para nós dois ele dizia que queria liberdade, e eu nunca o contrariei. Depois que ele morreu a tal velhinha apareceu de novo. Ahi eu não tinha desculpas, eu estava sozinha, precisava de uma companhia, embora que fiquei com receio de aceitar a pobre velhinha, mas fiz coragem e aluguei o quarto para ela. Ahi, me sentia mais acompanhada, mas ela tambem não ficava em casa, ela vendia roupas. Saía de manhã e voltava la pelas 3 horas da tarde, mas assim mesmo servia de companhia. Mas tambem perdi um pouco de liberdade, ela era tão medrosa, que eu não podia sair de casa nem para dar um telefonema na casa da vizinha que ela queria ir atras, eu não sabia como fazer para is aos domingos almoçar com os filhos. Eu era obrigada a voltar bem cedo para abrir a casa. Ela aos domingos tambem ia almoçar na casa de uns sobrinhos dela que eram enfermeiros no hospital São Paulo, mas logo depois do almoço ela voltava embora ela tinha chave da casa, ela não entrava enquanto eu não chegava. Ela tinha muito medo, ja com isso eu tinha me arrependido de alugar o quarto para ela, eu tinha me tornado uma prisioneira, não podia ir a nenhum lugar, que a tinha que levar atras. Mas que fazer ? Paciencia. Mas assim mesmo durou poucos meses. Numa quarta feira ela saiu para fazer compras, ela vendia roupas e a pobre velhinha recebeu a pensão do marido e foi na rua José Paulino comprar roupas para vender. Era esse o seu trabalho para ganhar o seu sustento. Quando voltou, las pelas 3 horas, ela almoçava fora, em pensão de segunda categoria, talvez comida mal feita ou estragada. Assim que ela chegou quis tomaar banho era o costume dela tomar banhos todos os dias nessa hora. Ela chegou passou por mim que estava sentada num banquinho perto da máquina, bordando e ela me deu uma bala e disse chupa essa bala está bem gostosa; eu aceitei. Ela aabriu a porta da copa e foi tomar banho no banheiro de baixo, e eu disse a ela, porque não toma no banheiro de cima ? Só que depois que voce tomar banho passe um pano para que não fique molhado. Mas ela preferiu o banheiro de baixo. Eu estava bordando, mas quando percebi que estava demorando muito abri a porta da copa e qual não foi meu espanto vendo a velhinha caida no chão sem fala e inconsciente ! Apavorada chamei pelos vizinhos que me ajudaram a levantar-la ae pusemos em cima do sofá vomitando sem parar. Enquanto telefonei para minha filha Yvone, e ela logo veio trazendo em companhia tambem minha nora Marly. Os vizinhos chamaram uma viatura a Yvone precisou ir com ela, nao deixaram ir com o caro dela, precisando entrar na viatura com a doente. Dona Augusta era o nome dela. E assim a Marly ficou comigo umas horas, mas quando esperou tanto tempo e vendo que a Yvone não chegava ela tomou um taxi e foi embora, enquanto a Yvone me preocupava com sua demora. Depois de muitas horas a Yvone chegou e contou que foi tanta dificuldade internar a D. Augusta no hospital, mas graças a Deus conseguiu. Uma vizinha chamada D. Alzira se encarregou de localizar os sobrinhas, que por ventura eu lhe tinha perguntado com se chamavam as sobrinhas,, e a D. Augusta me tinha contado que elas trabalhavam na Maternidade São Paulo e uma se chamavam Yolanda e a outra Julieta, e assim a minha vizinha as avisou da ocorrencia e depis de 15 dias as sobrinhas vieram em casa e disseram que a tia tinha falecido e vieram buscar todos os seus pertences. Mas ninguem pode imaginar quanta dor de cabeça me deu esse fato. E ahi fiquei novamente sozinha e pior, fiquei um tanto impressionada com a morte de D. Augusta. Tinha medo de ficar sozinha, mas que remedio era me conformar. Depois de uns dias, a minha amiga Dna. Armanda me mandava todas as noites a empregada dela ; mas a empregada não era obrigada. Ela vinha porque dizia gostar de mim, e assim eu não podia deixar de dar alguma coisa para ela; e como ela tinha vicio de fumar, eu lhe dava todas as vezes que pousava em casa lhe mandava comprar um maço de cigarros, e sempre eram 10 cruzeiros, e assim memso dava na mesma ficando o dia todo sozinha. Como é triste a solidão ! Continuei desse jeito algumas semanas, mas não dava certo. As vezes a empregada não vinha por qualquer motivo trabalhar e minha amiga me avisava que a empregada não viria me acompanhar, e ela para não me deixar sozinha, me vinha buscar e me levava para a casa dela, onde eu jantava e pousava nessa noite, e de vez enquando era isso que acontecia. Apesar de essa amiga ser tão boa e gentil, eu me sentia tão deprimida e tão triste , que eu não sabia que fazer de minha vida. Achei que isso não podia continuar. E foi assim que um dia veio na minha casa a minha cabelereira me fazer permanente, e eu estava sozinha. Enquanto ela estava tratando do meu cabelo, ela me disse que estava procurando um quarta para morar com a filha, que onde ela estava não podia mais ficar, porque a dona da casa precisava acomodar uma filha que ficara viuva e era preciso desocupar o quarto que ela morava. Eu então estando sozinha e precizando de companhia, e tambem de um pouco de dinheiro, ofereci se queria alugar o melhor quarto de minha casa. Pergunteia a ela quando pagava onde estava. Ela me respondeu que pagava 400 cruzeiros. Eu fiquei surprendida ! Achei tão pouco e nessa ocasião não se achava nem por 1000 cruzeiros ! Mas como eu estava tão isolada, triste que pois fazia pouco tempo que tinha falecido o meu querido esposo, a saudade e a solidão, a angustia que sempre me acompanhava, resolvi alugar para essa japoneza que era a tal cabelereira.por 500 cruzeiros. Depois de uns dias, chegou a mudança. Voces não imaginam como fiquei decepcionada, com o caminhão cheio de bugigangas, tudo coisas velhas, camas feias, colchões esfarrados. A minha casa que era tão ajeitadinha, ficou um bagunça ! Mas que fazer ? Era esse meu destino. Dai em adiante minha casa virou bagunça, ela ocupava tudo o que era meu,panelas, pratos, toalhas, pano de pratos, tudo, tudo, tudo. Eu tina até perdido o jeito de ficar em minha casa, parecia que eu era a inquilina e assim mesmo nem servia de companhia. A filha saía de manhã , com a cara enfezada, e só com o namorado pelas 12 horas da noite, as vezes as 1 - 2 horas , chegavam e ligavam a minha televisão colorida que a Yvonne me havia dado depois que o pai morreu. E eu ficava nervosa ouvindo a televisão ligada até as 2 ou 3 horas da madrugada. Depois o noivo ia embora e ela ia dormir, e só levantava às 11 ou 12 hs da manhã com a cara amarrada, e tomava café, sujava o fogão e a cozinha e deixava de pernas para o ar e ia embora. A mãe levantava cedo, lavava as roupas delas tomava café que ela mesma fazia e la pelas 8 horas ia embora, com o carro que ela tinha - ia servir as freguezas e só voltava pelas 10 ou 11 horas da noite. E, do mesmo jeito fiquei sem companhia. Ficava sozinha na sala, fazendo crochet, até ela chegar. Quando ela chegava , subia e ia para o quarto dela e eu ia para o meu. Mas eu andava muito nervosa, alem de não ter companhia, elas haviam tomado liberdade que a casa parecia delas não minha, e assim mesmo pagando uma miséria . Foi assim que eu resolvi alugar a casa e morar com a Yvone, minha filha, e assim fiz. Aluguei a minha casa e fui morar com a Yvone no dia 5 de março de 1977. Mas não deu certo, por diversos motivos. Ela andava muito atarefada, com muito trabalho, Ela tinha que enfrentar uma vida muito trabalhosa, os filhos estudavam na Universidade de Campinas e ela tinha muitas despesas. A filha tambem estudava no Colégio Bandeirantes que tambem era muito dispendioso, e sem apoio de ninguém tinah que trabalhar sozinha, e por isso andava muito nervosa. Ela estava numa situação precária e foi assim que resolvi procurar um pensionato onde eu poderia ficar o resto de minha vida. Antes de procurar, pensei bem, mas não tinha outra solução. Nos outros filhos não tinha lugar . Mesmo na Yvone não tinha lugar, embora a casa fosse grande, mas como ela não tinha meios de sustentar a família e educar os filhos nas faculdades, ela resolveu alugar os quartos para hóspedes alemães, engenheiros especializados que são chamados para as grandes firmas, e ficavam trabalhando no Brasil para pouco tempo, 20 dias, um ou dois meses. Assim ela se defendia para dar sustento da família e os estudos dos filhos. Assim achei que eu não podia mais ficar morando com ela e para não incomodar ninguém, resolvi procurar onde eu poderia ficar o resto da minha vida. E no dia 19 de abril de 1977, era um domingo, eu fui almoçar na casa do Djalma. Depois do almoço , fui descansar, lá pelas 4 horas,levantei-me. Como antes de morar com a Yvone ja tinha procurado um pensionato, para ver se tinha lugar, e foi o mesmo que agora estou, mas não havia lugar naquela ocasião, eu nunca mais procurei. Já haviam passado 4 ou 5 meses. Nesse domingo que almocei com o Djalma, me lembrei do pensionato e telefonei. E fiquei surpresa que justamente nessa ocasião havia uma vaga, que é este belo quarto onde eu estou agora. A madre me disse que era para eu ir no mesmo dia, porque haviam muitos pedidos e ela queria saber se eu ficaria com o quarto. Eu lhe disse que iria com o Djalma e a Marly. Assim esperei que o Djalma levantasse e antes dele descer, eu falei com a Marly e lhe disse que havia telefonado para a madre Modesta, do pensionato, e que tinha uma vaga e eu havia decidido me mudar da casa da Yvone para la. Quando o Djalma desceu, a Marly falou com ele e disse que eu queira ver o quarto do pensionato. O Djalma ficou surpreso, não se conformou com a minha decisão, mas eu insisti e quiz ir falar com a madre Modesta. E lá pelas 5 horas da tarde, desse domingo, 19 de abril, eu com eles fomos ver o pensionato. Quando chegamos, entramos no portão principal e o Djalma entrou antes de todos. Eu, Marly e as crianças fomos atrás. Mas, logo que o Djalma entrou, deparou com umas velhinhas, umas com bengalas e outras esclerosadas, outra cega, e ficou tão mal impressionado, que começou a chorar, e virando-se para a mulher dele disse em soluços :Não, não! de jeito algum minha mãe fica aqui ! Não quero que minha mãe fique aqui e chorava que as lágrimas lhe molhavam todo o rosto, e os filhos deles, olhando para o pai, também choravam. Fiquei penalizada ! Não por eu ter ficar, mas por tanta pena do meu querido filho Djalma que tanto sentiu. Mas a madre Modesta o abraçou e disse a ele¨ Não chore meu filho, é a tua mãe que quer , e tenho certeza que ela se sentirá bem aqui. E assim o abraçando, o levou no quarto onde eu esteu, e disse-lhe : Olhe que bonito quarto ! Ela aqui terá tudo E assim nos mostrou todos os lugares do pensionato, Capela, refeitórios, o jardim, enfim, todos os lugares bonitos. Enquanto isso a madre conversava com a Marly e queria saber se eu tinha bom gênio, se eu era saudável, enfim tomar informações sobre mim. Enquanto isso, eu, Djalma e as crianças fomos à capela onde Djalma tocou um pouco de orgão e sempre com os olhos cheios de lágrimas. Depois nos encontramos com a madre e a Marly. Nos despedimos e fomos embora ficando combinado que entraria no pensionato logo que meus móveis ficassem prontos. No dia 4 de março de 1977, dei entrada neste Pensionato Nossa Senhora das Mercês , situado na rua Dna. Elisa de Moraes Mendes, 250 - telefone 262 1115 . Depois comuniquei a todos e a Yvone tambem ficou triste com minha resolução . Mas agora já estão todos conformados. Aos domingos, nunca fico aqui. Quase sempre vou no Djalma, no Nelson ou na Yvone e graças a Deus vou vivendo aqui e tenho certeza que não estou incomodando ninguém. Passo os meus dias sempre trabalhando. não paro de trabalhar. Não passo uma hora sem trabalhar. Eu trouxe a máquina e bordo o dia inteiro e com isso eu me distraio. Não tenho para pensar, me ocupo o dia todo no trabalho. Todos os dias vou à missa . Me levanto bem cedo às cinco horas da manhã , tomo banho e vou a missa. Às 6 ou 7 horas , tomo café e das 7 horas em diante estamos livres. Ninguém é obrigada a trabalhar. Também pudera, são muitas que já não poderiam fazer nada. Mas eu, graças a Deus,estou agora com 80 anos e meio e ainda estou com boa disposição para trabalhar. Todos admiram quantos trabalhos bonitos eu faço. Trabalho também para as madres. Bordo tudo o que elas pedem. Elas gostam muito de mim. Estou aqui ha quase 2 anos e graças a Deus me sinto muito feliz. Embora quando vai chegando o fim de semana sinto imensa saudades de minha gente Mas vou com eles todos os fins de semana e assim mato as saudades. Volto para o pensionato e continuo a minha vida cotidiana. E assim vou passando. Neste momento que eu hoje estou escrevendo, lembrei-me que estamos na quaresma e eu aqui faço minhas orações todas as sextas-feiras. Ha uma reza da via sacra e eu poso ir sempre assistir. Estou feliz com isso. Agora que estou no fim da vida, para mim é muito importante rezar bastante e me arrepender de todos os meus pecados que talvez cometi. Peço a Deus que me perdoe todas as faltas cometidas, se é que cometi. Eu antes de estar aqui as vezes faltava às missas . Quando mais moça, quando os filhos eram pequenos, eu nunca ia às missas. Não era por falta de vontade,, mas por não ter tempo. Andava sempre atarefada e não podia deixar os afazeres de minha casa e assim deixei de ir à missa. Estou me lembrando que muitos anos atrás , quando os filhos eram pequenos, nessa ocasião eu só tinha o Nelson e a Yvone, e era uma sexta-feira santa. Nesse dia meu marido veio almoçar , nessa época ele tralhava na cidade, e trouxe um cão que tinha ganho de um amigo e freguez de onde trabalhava. Era um cão grande de raça de muito valor. O freques ira para a Europa e deu de presente para o José, esse lindo presente de grego. José amarrou o cachorro com a corrente e me recomendou para não deixa-lo fugir. Eu não gostei muito, mas que fazer ? Dei comida, água e o deixei amarrado conforme o José deixou. Como eu disse, era sexta-feira santa e nessa época moravamos na rua Hervé, no Belenzinho. Pertinho de nossa casa, ficava a Igreja São José do Belem . Como eu já tinha feito todo o serviço, tinha aprontado o jantar, uma boa bacalhoada com batatas e estava tudo pronto, e como era muito cedo, para José vir jantar, ele vinha às 8,30 horas e eram só 7:00 horas, resolvi ir a reza do lava-pés. Peguei os filhos, Nelson e Yvone e fui à reza. Deixei a comida pronta em cima do fogão., dei comida para o cachorro, fechei a casa e fui à reza. Acontece que a cerimônia dessa reza foi tão comprida, pois eram 13 velas e passaram-se muitas horas que quando voltei para casa encontrei meu marido tão nervoso e mal humorado por não haver me encontrado em casa, o cachorro tinha arrebentado a corrente e fugiu, mas antes de fugir subiu no fogão e derrubou a comida. Assim levei uma bronca daquelas. Nunca o José me xingou tanto e blasfemou. Ficamos sem a bacalhoada e fomos dormir de mal. Eu nunca tinha assistidi esse lava-pés, mas foi a única e nunca mais fui à uma reza assim. O meu marido era muito bom, Deus me livre se não me encontrava em casa! Assim foi para mim uma boa lição, nunca mais coloquei os pés fora de casa. Só saía quando ele me levava e sempre em companhia dos filhos. È por isso que eu não ando sozinha., nao sei ir a parte alguma sem ser acompanhada. Agora que meu adorado marido faleceu, eu não saio mais, a não ser que alguém me venha buscar. Todas as senhoras do pensionato saem, vão à feira, vão fazer compras, e são mais velhas que eu, algumas mais novas, mas quase todas saem . È que eu não estou acostumada a sair sozinha, nem no tempo que vivi com meus pais e nem no tempo que vivi com meu marido. Mas nem por isso perdi nada. Fiquei acostumada assim e assim sou feliz. Eu obedecia muito o meu marido e porisso era muito difícil brigar. Ele tinha bom gênio, mas tambem era um tanto nervoso se o contrariasse. Me lembro tambem de outra vez que ele ficou nervoso comigo. A minha sobrinha Angelina veio um dia nos visitar e quando ia embora pediu a tio José se me deixaria passar um dia na casa dela. Ela lhe pediu para eu ir ajudar a fazer uns enfeites de mesa, que naquele tempo se usava para enfeitar as mesas, de aniversários, de crianças. Como o primeiro filho dela ia completar um aninho, me convidou para ajudá-la, mas sem a ordem do José eu não podia ir a parte alguma. Assim, ela pediu e o José me deixou ir com a condição de eu voltar para casa antes dele regressar do serviço. Nessa ocasião ele tinha o salão de barbeiro na Avenida Rangel Pestana, 1419, pegado a Matriz do Braz. E assim eu fui com o meu Djalminha, que naquela ocasião tinha uns 8 anos, mas me servia de companhia. Cheguei na casa da Angelina, almocei e depois eu com ela começamos a fazer os enfeites de mesa. Eram tantos, que ficou noite e ainda estavamos fazendo os tais enfeites. Quando anoiteceu eu queria ir embora, mas a Angelina não deixou. Eu lhe dizia que o José ficava bravo comigo, que ele ficava muito nervoso se na hora que ele chegase em casa não me encontrasse. Mas ela insistiu tanto e me disse que ela mesma iria telefonar para ele dizendo que não havia me deixado ir para podermos terminar os trabalhos. Assim ela telefonou, mas o José já estava tão nervoso que lhe respondeu mal. Mais do que depressa saí correndo, eu com o Djalma. Assim que cheguei em casa, la pelas 9 horas. Naquele tempo viajava-se de bonde. O bonde demorou um tempão e de Pinheiros ao Braz tomava-se dois bondes. Quando cheguei com o Djalma, ninguém pode imaginar a bronca que levei. Eu tinha deixado a empregada, que se chamava Romária, e também o jantar pronto, mas ele não comia se eu não lhe servisse e estivesse em casa. Quando cheguei, toquei a campainha, 2 ou 3 vezes e ele não deixou a Romária, minha empregada, abrir a porta. Fiquei um tempão esperando que abrisse. Fiquei um bom tempo esperando que abrissem até que finalmente ele abriu a janela e me xingou e disse para eu voltar para a casa de minha sobrinha. Mas fiquei esperando, até ele se acalmar. Assim depois de tanto tempo a empregada teve a ordem de abrir a porta. Quando entrei, Deus sabe o que ouvi. Tambem nessa noite fomos dormir de mal. Mas nossas brigas não duravam muito. Nunca ficamos mais que um dia de mal. Logo se acalmou e compreendeu a razão pelo meu atraso e assim ficamos de bem. Nunca mais saí sem ordem dele e nunca mais deixei de estar em casa quando ele chegasse. Mas em 54 anos, se pode contar as vezes que ele se contrariava comigo. Eu o compreendia e porisso nos dávamos muito bem. Agora que estou no pensionato sinto tantas saudades daqueles tempos tão bons, sempre alegre e contente com tudo que o Bom Deus me dava. Sempre achei que Deus me deu tudo o que queria na vida. Me deu um bom marido, uma boa família e sempre tive o necessário para viver honestamente. Nunca ficamos devendo nada a ninguém, vivemos bem. Nunca faltou nada graças a Deus. Até hoje nada falta, tenho tudo. Graças a Deus e a meus filhos. Eles me dão tudo o que preciso. Que Deus os abençoe..
Hoje estou escrevendo. É domingo, dia 24 de junho de 1979. Estou fazendo hora, esperando o Nelson vir me buscar para almoçar em companhia de sua família. Hoje é aniversário da netinha dele. Esta fazendo 2 anos e chama-se Juliana. É filha de seu primeiro filho, José Pedro. Sua esposa chama-se Marly e têm duas lindas filhinhas: a primeira chama-se Flávia e a segunda Juliana. Graças a Deus que alcancei ser bisavó. Domingo passado, dia 17 de junho, foi meu aniversário. Completei 81 anos. Almocei na casa de meu filho Djalma. Fizeram um bom almoço e à noite vieram os outros filhos e netos e comemoramo com um bonito bolo e champagne. Graças a Deus a minha vida tem sido sempre repleta de alegrias e felicidades. Permita Deus que continue assim até minha morte. Embora eu esteja morando no pensionato, estou sempre com meus filhos. Todos os domingos vem me buscar. Mais vou à casa do Djalma e de tanto em tanto na casa dos outros filhos. São tão bons, não tenho queixas de ninguém e nada me falta. Estive um pouco aborrecida neste começo do mes de junho por minha filha Yvone ter ficado doente. Esteve internada no Hospital Pan Americano 10 dias, mas graças a Deus já está bem. Foi só um susto que levei. Felizmente ela está bem melhor e com certeza tambem irái ao aniversário de minha bisnetinha Juliana onde a encontrarei. Assim mato as saudades de meus filhos e netos e à noite voltarei para o meu pensionato. Amanhã começo outra semana. Aqui no pensionato passa tão rápido a semana que ninguém imagina. Eu trabalho com bordados e crochês. Sempre tenho serviço. Acabo um começo outro, e assim os dias passam correndo. Logo chega o domingo e na certeza o meu filho Djalma me telefona e vem me buscar. Assim, eu vou em quem me telefona primeiro. Quase sempre é o meu filho Djalma que me telefona, e porisso eu vou mais no Djalma. Mas eu gosto de todos, são todos muito bons para mim, não tenho queixas. Eu aqui recebi muitas visitas. Esta semana estiveram aqui minha sobrinha Rafaela como a filha Lilia e os netinhos, dois meninos engraçadinhos. Um se chama André e o segundo Ricardo. Esta semana recebi também muitos telefonemas e visitas, por ser meu aniversário natalino. Ninguem deixou de lembrar de mim e por isso, mais uma vez digo que sou a mulher mais feliz do mundo. Tambem todas minhas amigas daqui me cumprimentaram pela feliz data, dos 81 aninhos. Faço votos que alcance ver também os filhos do Djalma nas Faculades e que continuem sendo sempre os melhores da classe. Eles estão sempre nos primeiros lugares, graças a Deus. Todos os meus netos foram firmes nos estudos e é porisso também que me julgo muito feliz. Eles não me deram desgostos. Permita Deus que sejam sempre assim, bem comportados e trabalhadores e que honrem sempre a família. Sempre achei que não é o dinheiro que nos faz feliz. Nunca tive muito dinheiro, e tambem não tive casa muito luxuosa, e nem um carro, mas tambem nunca ambicionei o que não estava a meu alcance. Me contentei com que podia ter, e asim sempre me considerei feliz. Não tinha um automóvel. Para que ? Eu não precisava, passeava de bonde. No tempo dos bondes não tinha tanto perigo como agora com os automóveis. Não tinha casa atapetada e com tantos banheiros e jardins. Também não tinha tanto trabalho para manter tudo aquilo em ordem. Vivi uma vida mais sossegada do que vivem agora. Com falta de empregadas e com tantas dificuldades da vida, as pessoas ficam velhas antes do tempo. Eu aqui com meus 81 anos, ainda estou forte e sadia, graças a Deus. Não que eu não tenha trabalhado. Trabalhei até demais, mas os tempos eram outros. A gente agora é escrava da casa. Para manter tudo limpo, os vidros, o assoalho, as cortinas, as pratarias, o jardim, as flores nos vasos, enfim uma infinidade de coisas, que agfente mesmo sendo rica, trabalha o dia todo, e não vence. Meus filho estão em situação melhor que foi a minha, mas quando eu vou à casa deles, vejam que trabalham tanto e nunca tem fim. Vejo na casa do Nelson ou da Yvone ou Djalma. Estão sempre atarefados e penso comigo, eles tem tantas comodidades e trabalham tanto ! Eu não tinha nada disso na idade deles: nem geladeira, nem liquidificador, nenhum aparelho elétrico, mas parecia que a vida era mais fácil. Não consigo entender porque...
Eu sempre fiz macarrão em casa. Moía a carne batendo com a faca, para fazer as almondegas. Nunca comprei nada pronto. Trabalhei de pespontadeira para ajudar meu marido, até que os filhos se formaram. Depois comecei a trabalhar de bordadeira e até hoje estou bordando, e assim mesmo eu acho que a vida das mulheres de hoje é mais difícil, e que antigamente não havia tanto luxo nas casas e tantas preocupações como agora. Havia mais simplicidades. Ninguém reparava em nada. Hoje é tudo mais difícil. Eu vou muito à casa do Djalma e vejo a atenção que eles dão aos filhos. A minha nora Marly, dedica-se aos filhos ensinando lições da escola, preocupando-se por tudo. Com a limpeza e com tudo. Vejo que com ela mesma, não tem tempo de ir a um cabelereiro. Tem sempre o que fazer. E assim com a Yvone, a Eunice. Estão sempre trabalhando, mas tambem vivem com tudo em ordem e é porisso que os filhos vão bem na escola e os mais velhos já estão formados. Graças a Deus eu tenho duas noras muito boas. São excelentes esposas, e boas mãezinhas e tenho também uma boa filha, muito trabalhadora e de muito bom coração.
E é por isso que eu sou feliz. Tenho um boa família !
Faleceu em São Paulo, Capital, no dia 11 de julho de l988 (c/ 90 anos e 24 dias)

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